Mensagem(69): O Salvador

Sempre me impressionaram os dois últimos capítulos do Evangelho de São Mateus antes do relato da Paixão (24 e 25), concretamente aquela boa «radiografia social»: “Nos dias que antecederam o dilúvio, comia-se, bebia-se, os homens casavam e as mulheres eram dadas em casamento. […] E não deram por nada até chegar o dilúvio que a todos arrastou” (Mt 24, 38-39). Num lugar paralelo, São Lucas fala de “embriaguez da existência” (Lc 21, 34).

De alguma forma, assim aconteceu connosco. Saboreávamos um crescimento económico acentuado, saudávamos o turismo como grande agende de transformação da nossa cidade e região, preocupávamo-nos com a marcação das férias da Páscoa, pesquisávamos as viagens baratas para a fuga à rotina, investigávamos cuidadosamente quais os cursos que proporcionam maior rentabilidade económica e social, etc. Isto é: colocávamos o centro da nossa existência fora de nós. E, por maioria de razão, fora de Deus.

Entretanto, chegou o invasor, sem pedir autorização para entrar. Instalou-se, tomou posse pela força, decretou que quem mandava era ele. E as coisas mudaram. Os sonhos confrontaram-se com a realidade, as altas expectativas agora são de sobrevivência, o otimismo empolgante deu origem a um estado de amarga insatisfação.

Mas voltemos à Bíblia. As passagens citadas inserem-se num género literário muito estranho ao nosso pragmatismo contemporâneo e à hermenêutica cientifica: a apocalíptica. Pela crítica histórica, sabemos que é típica das épocas de crise. Mas tem sempre um objetivo perfeitamente visível: consolar os corações aflitos, encorajar os submetidos à prova e afiançar a certeza do triunfo definitivo de Deus.

É quanto se pode dizer no momento que passa. Lida em chave de fé, a história garante que o Senhor intervém, mesmo quando parece que vai a dormir na barca: só Ele acalma a tempestade e traz a bonança (Mc 4, 35-41). Não estamos sós! Ele próprio deu a certeza que estaria sempre connosco até ao fim dos tempos (Mt 28, 20). E está tal como é: Salvador.

Por isso, neste momento, importa recentrar a existência n’Ele e implorar como o autor do Livro do Apocalipse: “Ámen! Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22, 20).

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