Mensagem (65): Visões

A Bíblia não intenta uma explicação «científica» da vida: nunca a retalha na ponta de um bisturi, mas aprecia-a globalmente e observa-lhe o valor, a dignidade, a razão. Não a entende fora da relação com o Deus que a criou. O que lhe garante indisponibilidade: ninguém é dono dela. E vê n’Ele a garantia de futuro, o horizonte de sentido donde nasce a esperança, antípoda de todo o desespero: a fidelidade divina assegura que toda a vida é uma bênção, que toda a vida produz frutos que nenhuma outra pode produzir.

Neste sentido, a vida é uma graça, pois é o único meio através do qual Deus providencia a continuidade do mundo e lhe assegura a meta da plenitude: o aperfeiçoamento do universo, o domínio da natureza e a coparticipação na Sua obra criadora (Gn 1, 28). Por isso, o crente não vê a vida como uma possessão quantificável em um qualquer valor económico, já que não é dono do que não adquiriu, mas simples depositário do que lhe foi oferecido.

Lida nesta ótica, a vida é gentileza e amabilidade que nos vem do Alto. Mas, consequentemente, também responsabilidade, resposta, compromisso. Ou, como dizemos frequentemente, vocação e tarefa: somos chamados a cuidar do maior dom que Deus colocou em nossas mãos. Daqui a liberdade e a decisão: aceito ou rejeito ser fiel à vida e ao dom de Deus?

Mas esta é a visão que só uma luz permite: a luz da fé. Esta não distorce a realidade, não ofusca, não deixa refolhos na penumbra, não ilumina só um setor deixando os outros na escuridão. Objetivamente, é uma luz que faz ver tudo o que as outras luzes fazem ver, mas que, além disso, possui uma claridade exclusiva que as outras não atingem nem atingirão.

Com a luz da fé, sabemos que a vida depende de Deus, faz referência a Ele. E que é Ele quem lhe assegura a dignidade e o sentido. A visão naturalista e autossuficiente, pelo contrário, reduz a vida a valor instrumental, a critério de disfrute, a vontade de poder, a norma estética, a posse individual sem responsabilidade social. E se estes falham, para ela, soçobram as razões de viver.

Quando nos mostramos contra o que aniquila a pessoa e o valor da vida, muitos dizem que o fazemos por motivos religiosos. E, se calhar, têm razão. Mas precisavam de dizer mais uma coisa: que, objetivamente, são míopes, veem pouco, possuem uma visão desfocada. Nós, os crentes, na realidade, vemos mais e mais claramente. Por mais que lhes custe reconhecerem-no.

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