Palavras do nosso tempo: totalitarismo, secularização, cultura

A presença no Porto do cardeal Angelo Bagnasco, Arcebispo de Génova e Presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, nas Jornadas de Teologia promovidas pela sua Faculdade na Universidade Católica (Porto), conduziu a uma reflexão alongada sobre conceitos e seu entendimento na linguagem comum dos nossos dias. Os acontecimentos, as novidades, a tecnologia envolvente geram novos conceitos e os conceitos geram novas palavras que se tornam banalizadas e que muitas vezes acabam por ocultar os conceitos originais.

Por M. Correia Fernandes 

Entre estes conceitos originais lembrou o orador a visão de Pascal (1623-1662), que postulava a passagem da realidade das coisas ao infinito, propondo que o acreditar em Deus sempre era causa de valorização para o homem “se acredita em Deus e estiver errado, terá uma perda infinita; se estiver certo, terá um ganho infinito”: este é pois um caminho mais criativo e favorável.

Entre as palavras do nosso tempo surge totalitarismo: O totalitarismo não é uma cultura, mas é a negação da cultura, porque destrói o homem, a pessoa humana, a sua inserção no tempo e na sociedade, no relacionamento de todos. Todos os totalitarismos foram destrutivos. Necessário ao nosso tempo e a todos os tempos é apresentar e procurar as causas da libertação. O homem pós moderno deve percorrer o caminho que conduz da razão à pessoa total, do individualismo à relação pessoal. É neste sentido que a mensagem e o espírito evangélico se situam na cultura de todos os tempos: procurar e propor as causas da libertação da pessoa em toda a sua integridade humana. Não é outro o sentido da palavra evangélica: “procurareis a verdade e a verdade vos libertará” (João, 8,32).

Há outras palavras do cardeal que são motivadoras: a cultura nascida do Evangelho tem por finalidade maior dar valor à pessoa total: não apelas à razão ou ao sentimento, mas à pessoa na sua integridade racional, afetiva e espiritual. A sua atitude essencial não deve ser a do medo, mas a da confiança: a santidade evangélica não é apenas uma dimensão exclusiva mas uma dimensão total da pessoa: no testemunho da vida quotidiana se exprime e realiza a santidade. Uma afirmação curiosa: a dinâmica cristã não consiste em fazer, mas em deixar fazer, abre assim caminhos de criatividade pessoal e comunitária.

Uma das dimensões do homem moderno deve ser a procura das suas raízes, a cultura nascida da vida concreta dos povos, da sensibilidade popular, o que deve conduzir a novas dimensões da pessoa, superando a trágica angústia da vida. Hoje há tendência sub-reptícia de se afirmar nas mensagens correntes apenas o homem económico, o homem consumidor de produtos ou ideias, ou o homem tecnológico imerso nos mecanismos da produção ou da manipulação. Importa edificar a pessoa humana na sua vivência integral: presente, história, cultura, alegria da contemplação do belo, a dinâmica do caminhar em conjunto, diálogo entre a subjetividade e a realidade objetiva.

Recordou ainda o mito de Sísifo como questão fundamental de toda a filosofia: é o projeto de sempre recomeçar, de retomar o caminho, de descobrir novos caminhos, no pensamento e na ação. Este é a proposta da fé: não contradiz nem se opõe à razão, mas encontra novas dimensões para a pessoa e para a sua relação com o humano e o transcendente.

Assim a grande proposta cristã: a filosofia procura a capacidade universal de descobrir e encontrar a verdade da condição humana, a resposta à questão dos séculos: quem somos, donde vimos, para onde vamos. Isso nos conduz à procura constante do sentido da vida.

É neste contexto que a palavra do evangelho assume a sua missão: transformar o tempo existencial (Kronos) em tempo de revelação, de anúncio do novo, de presença, de novidade, de realização, de afirmação, de salvação (Kairós).

Em resumo, da palavra do Cardeal. “A modernidade deve se assumida como a idade adulta de uma humanidade finalmente liberta da superstição, emancipada e madura”, superando o “notável excesso antropocêntrico” de que fala o Papa Francisco a propósito da modernidade (“Laudato Sì”). “As comunidades devem ser humildes, devem ser o espaço em que tudo é visto na luz da fé”, que resumiu em três palavras: fé, confiança, obediência.