Mensagem (58): Sadismo

Convencido de que mais importante do que recolher vítimas é o evitá-las, aí pelos inícios de 1951, o P. Américo de Aguiar, o eterno “Pai Américo”, agora declarado “Venerável”, desafiou a Igreja com o célebre brado que viria a constituir como que um mote: “Cada freguesia cuide dos seus pobres”.

Ele mesmo deu o exemplo e construiu as primeiras casas para pobres em Paço de Sousa. A lição alastrou quase como fogo em gasolina. E em poucos anos, largas centenas ou alguns milhares de casinhas, pequenas, mas arejadas, começaram a povoar o urbanismo de muitas paróquias. E deu-se-lhes um belo nome que as identifica até hoje: Património dos Pobres.

Como os santos são sempre superiores à sua época, acredito que haja nesta designação uma pequena «maldade», sabiamente provocadora: a tabuleta que diz “Património do Estado”, em edifícios quase sempre desenvergonhadamente roubados à Igreja, é agora substituída por uma outra, “Património dos Pobres”, que, na prática, é uma nova oferta da Igreja ao Estado. Com outra diferença: é que, enquanto o Património do Estado está, em grande parte, numa confrangedora ruina que só serve para abrigar pombas, o dos pobres continua cuidado, habitado, exemplar.

Curiosamente, este Estado delapidador de tanto património, agora, descobriu uma mina de rendimento: taxar com IMI o que os católicos fizeram para suprir um ente sem consciência e sem sensibilidade. E porque muitas Paróquias ousaram construir cinco, dez, vinte ou mais casa dos pobres, quase sempre em locais que, hoje, o crescimento urbano, veio colocar no centro populacional, com o consequente aumento de valor, obviamente, esse património entra na letra do novo escalão do Adicional ao IMI. Moral da história: imposto sobre imposto. Apenas por uma razão: por se socorrerem os pobres.

É o requinte do oportunismo. Ou mesmo do sem-vergonha. Porque os dirigentes das Finanças sabem –imagino que sejam suficientemente cultos para isso- que os pobres que lá habitam, muitas vezes, não são propriamente um reportório de «virtudes». Como tal, são as paróquias que fazem as obras de manutenção dos edifícios, que cuidam dos espaços ou até alimentam os inquilinos. E recebem de renda… zero ponto zero. Sim: zero ponto zero.

Será que as Finanças pretendem que se coloquem esses locatários na rua e, com um buldózer, se arrase o Património dos Pobres? No meu dicionário, isso teria um nome: sadismo. Mas não se esqueça que a maioria das nossas paróquias, hoje, não têm dinheiro para mandar cantar um cego. Quanto mais para pagar um imposto… de luxo.

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