Editorial: Um Natal com o Auto da Alma

A Sé do Porto teve em cena o “Auto da Alma” de Gil Vicente, como proposta de preparar o Natal do Senhor. É uma forma menos comum de o fazer, mas o resultado é bom.

Por Jorge Teixeira da Cunha

O texto tem uma grande força a nível religioso e moral, e as pessoas que assistiram à representação não ficaram indiferentes. Esta escolha do Cabido Portucalense insere-se numa longa tradição popular que promove representações teatrais para acompanhar os grandes momentos do ano litúrgico.

Muitas pessoas de meia idade se lembram de ter estudado na escola esta peça de Gil Vicente. Mas era demasiado cedo para compreender o alcance do texto, a actualidade e exemplaridade. A encenação que foi dada a ver tinha precisamente essa preocupação por mostrar o valor de uma obra com mais de cinco séculos para os dias de hoje.

O texto vicentino enquadra-se num tempo em que a cultura moderna, de que somos nós os continuadores, estava a nascer. A presença do cristianismo era a base da apreensão do sentido da vida, mas em que estavam a acontecer as mudanças que marcaram o futuro. Entre esses aspectos novos são especialmente visíveis o nascimento do individualismo e a moral nominalista. Se olharmos bem, ainda não acabámos de lidar com essas formas de viver.

A Alma que vemos em cena é essa figura do ser humano na sua individualidade, confrontada com o apelo do divino e com a sedução do mal. Esse confronto é estremado até à angústia, por parte de quem tem de se autodeterminar, sem o suporte das formas de pertença à família ou aos outros grupos naturais e eletivos que balizavam a vida antiga. Neste sentido, o teatro espiritual vicentino é já moderno. Pode ver-se nele uma evidente afinidade com a espiritualidade promovida por Erasmo de Roterdão que punha em evidência a necessidade da militância para se poder ser cristão num tempo adverso. Alguns até verão aí já o modo angustiado de viver que o luteranismo identificou na existência humana, esticada entre o divino inacessível e a sedução do mal. A cultura portuguesa não estava tão longe dos debates centro-europeus daquele tempo, como por vezes se pensa.

A moral nominalista está patente na apresentação do bem como uma lei vinda de fora, que o espírito humano identifica, mostrando-lhe o bem, mas não lhe dando força para a cumprir. Este foi, em certo sentido, o caminho moderno da moral. Houve uma grande boa vontade dos modernos para seguirem o caminho da bondade que lhe era mostrada pela razão e pela revelação. Por esse caminho se tornaram rigoristas, confiando que podiam atingir a perfeição pelos seus meios. Também aqui, a cultura portuguesa não anda longe do que se passava no centro da Europa que, sendo exigente consigo, se tornou jansenista.

Apesar de tudo, o texto vicentino mostra uma moderação que também foi própria dos povos do Sul, católicos. O caminho da fé e a participação dos sacramentos, vividos na Igreja, lugar de misericórdia, é, em último caso, a meta proposta ao ser humano para desmascarar o mal e sentir a carícia do bem. Por isso, assistir ao “Auto da Alma” pode ser um belo exercício para celebrar o Natal. No Presépio de Belém, revela-se o grande mistério da piedade e da compaixão divina, pela qual o mundo existe e onde, pelo assentimento da fé, todos os seres humano podem encontrar a consolação de uma existência realizada e feliz, para lá de toda a angústia e de todo o mal do mundo.