Vigararia de Matosinhos promove reconhecimento da missão educativa dos professores

No âmbito do mês missionário extraordinário, e na sequência a aproximação e do diálogo entre a Igreja e o mundo escolar, impulsionado pelas recentes visitas pastorais, a Vigararia de Matosinhos promoveu, ao fim da tarde do passado dia 23 de outubro, um encontro de reconhecimento dos professores e de reflexão sobre a sua missão educativa, que teve lugar nas instalações da Porto Business School, junto à Igreja de Nossa Senhora da Hora.

Foram convidados todos os professores residentes ou a lecionar no concelho de Matosinhos, mediante convite pessoal dos párocos, que, para tal, visitaram previamente as Escolas da sua área geográfica e pastoral.

Num tempo em que são muitas as mudanças no processo educativo, e em que a missão educativa do professor se tem de reconfigurar continuamente, importa valorizar e realçar o papel insubstituível do professor e a decisiva qualidade da relação educativa, no âmbito do processo de ensino e aprendizagem.

Convidados a intervir foram a Professora Doutora Maria de Lurdes Fernandes, vice-reitora da Universidade do Porto, e D. Manuel Linda, Bispo do Porto.

Valorização ética da relação com os outros

A palestrante, que é também membro do Comité Pontifício de Ciências Históricas, recordou que hoje o professor não tem a exclusividade do saber e da sua transmissão, uma vez que são muitas as fontes de acesso ao conhecimento, mas que, por isso mesmo, o professor deve valorizar a qualidade humana das suas relações e a sua função de mediador junto dos alunos, no apoio à construção de um projeto de vida, com sentido ético. Destacou a importância dos modelos culturais e a emergência educativa, nestes tempos de imprevisibilidade, que acentuam a complexidade do fenómeno educativo.

A formação para a liberdade, o desenvolvimento do sentido comunitário do bem comum, a superação da dimensão técnica do ensino, o desenvolvimento de um tecido humano, pautado por valores morais, a valorização ética da relação com os outros, exigem do professor uma presença de proximidade e de autenticidade, que são marcantes na vida dos alunos.

Defendeu que o ensino deve incorporar conceitos, atitudes e valores, que são decisivos numa cultura do respeito, do diálogo e da tolerância e estima recíproca das diferenças. Vencer a cultura da competitividade e do individualismo, potenciando a dimensão relacional, promovendo a bondade humana, são desafios atuais da missão educativa do professor.

Laicidade da inteligência ou laicidade da indigência?

D. Manuel Linda começou por reconhecer a missão educativa e decisiva dos professores, no presente e no futuro das novas gerações, enquanto alicerces de uma sociedade livre, lamentando a forma desproporcionada como se exalta a falha de um ou outro professor, facto que não tem correspondência nem paralelo com a atenção que devia ser dada à falta de respeito pela autoridade do professor e às dificuldades do exercício da sua missão, tantas vezes incompreendida e absorvida por procedimentos burocráticos. Dom Manuel felicitou a vigararia de Matosinhos por esta iniciativa de reconhecimento, mais do que necessário e justo, da missão educativa dos professores. De seguida, defendeu a inclusão do dado religioso na Escola pública.

Lembrou, logo ao início, que “o desconhecimento do dado religioso exprime não tanto uma carência de religião quanto uma lacuna grave de conhecimento, uma transmutação global de toda a cultura: a sensibilidade contemporânea valoriza a esfera audiovisual e fixa-se no epidérmico do efémero e do instante. Mas, sem história e sem memória, esta cultura dita «da extensão» ganha em repetibilidade o que perde em diacronia e visão global da longa gestação da nossa condição humana”.

Citou o célebre relatório que Jack Lang, o Ministro da Educação Nacional da França, solicitou ao intelectual de esquerda R. Debray, antigo conselheiro cultural do Presidente chileno Salvador Allende. “Debray parte de um dado objetivo: verifica-se uma enorme falta de cultura religiosa porque se tornou moda ignorar ou simplesmente desprezar a religião. E isto não tanto sob o ponto de vista das crenças, mas na sua dimensão sociocultural”.

O Bispo do Porto apontou várias razões para a pertinência e urgência da inclusão do dado religioso no ensino e para os riscos da sua exclusão, na promoção de uma cultura aberta à transcendência e capaz de compreender as manifestações culturais do espírito humano ligadas ao fenómeno religioso. Este conhecimento do fenómeno religioso é decisivo para a sua compreensão e para a afirmação de uma cultura do diálogo e do respeito pela diferença de modo que “a laicidade da inteligência” não se transforme na “laicidade da indigência”.

A disciplina de EMRC e a sua mais-valia

O Padre Amaro Gonçalo, adjunto do vigário de Matosinhos, foi o moderador do encontro, agradeceu a colaboração de todos e pediu aos professores que valorizassem a disciplina de EMRC, uma vez que esta é uma oferta educativa que responde e corresponde a muitos dos desafios lançados pelos palestrantes, na formação ética dos alunos e na promoção do diálogo inter-religioso. Não é difícil perceber – disse – quanto “o nível quase residual de implantação desta Disciplina em várias escolas do nosso concelho representa um empobrecimento no desenvolvimento de competências essenciais para ler e compreender o património cultural do nosso país e da cultura ocidental”.

Pediu o empenho de todos, na valorização desta Disciplina, como contributo fundamental para uma educação integral dos alunos e para a promoção de uma cultura, atenta a todos os seus sinais e desafios, nomeadamente aos do conhecimento, reconhecimento e estima recíproca das diversas religiões. O encontro contou ainda com uma breve prestação musical, proporcionado pela Escola de Música Óscar da Silva. Mesmo para os professores que não puderam vir, esta iniciativa constituiu um sinal de grande estima da Igreja, cujo primeiro passo evangelizador é o de reconhecer os sinais da presença de Deus e as “sementes do Verbo” em tantas pessoas que se entregam, de alma e coração, à formação das novas gerações e são, por isso mesmo, semeadores de esperança.

(AG)