Falar de Deus nos escaparates do mundo

É sabido que não é nos escaparates que se encontram os fundamentos nem da vida nem da palavra criadora, nem das pequenas bondades. Nos escaparates exibem-se as visões multitudinárias, as propostas ambiciosas, os projetos oportunistas, frutos de acasos ou de interesses pretendidos.

Por M. Correia Fernandes

Porém, nem sempre assim é. Com efeito, foi nos escaparates da “grande imprensa”, ou dos “grandes meios” que é possível encontrar universos, tanto de propostas humanistas e humanizadoras, como de ideias controversas, problematizadoras da tradição cristã, em diálogo e confronto com as fórmulas de um catolicismo demasiado assente nas fórmulas dogmáticas, por um lado, e por outro na visão iconoclástica que no mundo de hoje traduz o pensamento mediático.

Ora é este trabalho que diríamos de reconstrução sobre a desconstrução que Anselmo Borges vai assumindo na série de entrevistas publicadas no volume Conversas com Anselmo Borges, que acaba de ser publicado pela Gradiva (em setembro de 2019). A ordenação das “conversas” segue dois critérios complementares: o critério temático, e dentro deste o critério temporal. Sete são os “capítulos” ou “partes” em que a posteriori se aglutinam os temas coordenadores das entrevistas: “Percurso existencial; Religião/Religiões: o Sagrado de Deus; Festividades; Deus, que Deus; Os valores; Francisco e o futuro da Igreja; A morte e o seu Além”.

A origem dos textos agora publicados revela a profusão dos meios em que se inscreveu o pensamento lançado ao vento das páginas ou das ondas visuais ou sonoras, em tempos que são do século XXI já definitivamente entrado (de 2007 a 219): há entrevistas no Jornal de Notícias, revista Notícias Magazine, no Expresso (em várias épocas e várias circunstâncias), em estações de rádio (sobressaindo a Antena 1), Porto Canal, Jornal de Negócios, Sábado, Público, TVI, TSF, Diário de Coimbra (onde o autor foi docente da Universidade), no continente e nas ilhas, até no Canadá. Trata-se de um universo de amplidão geográfica e de dimensões culturais amplas e diversificadas. E em diálogo com personalidades tão conspícuas como Inês Maria Meneses, Fátima Campos Ferreira, António Marujo, Manuel Vilas Boas, Mário Robalo…

Convém notar duas presenças no livro, e o que elas podem significar: um prefácio de Jaime Gama (muitas vezes deputado, antigo Presidente da Assembleia da República, homem de ideologia socialista) e Lídia Jorge (escritora algarvia radicada em Lisboa, um dos nomes reconhecidos do romance português, alguém para quem o romance é uma forma de divulgar o pensamento, a história, as dinâmicas sociais e políticas, como aconteceu e acontece sempre com os grandes escritores). São textos significativos, porque situam o autor na sua dimensão de homem de pensamento, de cultura, e de membro comprometido da Igreja, na sua função de sacerdote, de professor universitário e de membro de uma Congregação votada à evangelização.

Muitas das perguntas que foram formuladas nestas entrevistas, em face do sentido crítico que o autor assume em relação e muitos problemas, tanto da Escritura e da Teologia cristã, como de normas e práticas da Teologia moral, nota-se sempre a tendência para perguntas como esta, que lhe é formulada (Pág.23): “Quando se deu finalmente a ruptura com a ortodoxia?” Poucos reparam na resposta dada, até porque perguntas semelhantes vão surgindo ao longo das diversas entrevistas: “Mas eu sou ortodoxo, no sentido de seguir a recta doutrina; procuro é interpretá-la para o tempo actual”.

Dentro desta ortodoxia traduzida no nosso tempo, Anselmo Borges, em resposta a muitas provocações que se encontram nas perguntas formuladas, vai lançando ao vento ideias problematizadoras ou orientadoras.

Vamos registar algumas: “Quem não concorda que vivemos numa profunda crise de valores?… É impossível fazer aqui uma análise crítica da situação e suas causas. Mas não posso deixar de referir a corrupção… o consumismo imoderado; o abandono de valores como a honra, a família, o trabalho…” (p.135).

“Se soubéssemos o que é o tempo, saberíamos o que somos e quem somos… o tempo é fundamentalmente o modo como nós nos fazemos… como o ser finito de faz” (p.168).

“Crer, acreditar, significa entregar-se confiadamente a Deus. E agir em consequência”. (p.192)

Os valores cristãos têm uma dimensão ética, e prática, que está para além da religião. O cristianismo contribui de forma decisiva para a compreensão da dignidade humana”. (P.193)

À pergunta “Qual é o cimento da cristandade hoje”, responde: “É evidente que o cimento tem de ser o de sempre: Jesus Cristo”. Há má vontade contra a Igreja, as Igrejas, mas nunca se ouve dizer mal de Jesus. (p. 226).

A fé não é racional no sentido de ser uma conclusão científica, à maneira da matemática ou das ciências experimentais. Mas para ser humana tem de ser razoável” (p.241)

“Hoje talvez Deus esteja sobretudo presente pela sua ausência. Por isso há forte busca de espiritualidade” (p. 242).

Um dos conjuntos importantes desta recolha é a problemática dos valores, que enche um capítulo. Outra será a presença ou compaginação do autor com a dinâmica dos ideias do Papa Francisco, sobre quem reuniu um conjunto de reflexões no livro Francisco. Desafios à Igreja e ao Mundo.

Como conclusão deste breve percurso, elucidativo e como sugestão de tantos temas que perpassam nas entrevistas aqui recuperadas, creio serem de reter as palavras de Lídia Jorge, no “Posfácio:

“Este livro ajuda os que formulam as perguntas essenciais, de modo solitário, a encontrarem companhia para os seus desassossegos, a força para procurarem alguma coerência no meio das perplexidades que a existência humana levanta”.

E diríamos: não apenas a esses, mas a quantos buscam o pleno sentido da caminhada da vida.