Estados Unidos : imigração e populismo

A dois anos de distância, a imigração ilegal para os Estados Unidos transformou-se já num dos grandes temas das próximas eleições presidenciais americanas. Mesmo sem se conhecer ainda o nome do candidato do partido democrata, tudo indica que os problemas ligados à imigração para aquele país constituirão um dos grandes temas da campanha eleitoral. Um dos grandes temas, e talvez um dos seus temas decisivos.

Por António José da Silva

Vem isto a propósito da nova celeuma provocada por mais uma comunicação de Donald Trump numa rede social de que é grande utilizado. A comunicação teve como destinatárias quatro jovens militantes do partido democrata, eleitas ainda recentemente para o Congresso, e que já se tornaram famosas por algumas posições públicas, suficientemente radicais para abalarem a estratégia tradicional do seu próprio partido. Além de jovens e corajosas, acresce anda o facto de todas serem oriundas de famílias de emigrantes, embora apenas uma tenha nascido fora dos Estados Unidos.

Opositoras assumidas do actual inquilino da Casa Branca, as quatro opôem-se claramente às políticas migratórias do governo, mas não se ficam apenas pelas críticas à construção do famigerado Muro que está a ser erguido ao longo da fronteira com o México, e com o qual Donald Trump pretende suster o caminho de centenas ou milhares de homens, mulheres e crianças em busca do seu sonho americano. O último ataque daqueles congressistas teve como alvo os centros de detenção de imigrantes ilegais.

É verdade que estes centros não foram inventados pelo actual governo de Trump, mas também é certo que a sua política anti-migratória acabou por potenciar a sua multiplicação, e que está na origem da degradação das condições de vida de quantos ali são internados temporariamente. Com algum exagero, uma das referidas congressistas comparou esses centros de detenção aos campos de concentração nazis, provocando uma reacção generalizada e emotiva de uma grande parte da opinião pública norte-americana.

A reacção mais forte e descontrolada a esta comparação veio do próprio presidente. Trump não só as acusou de falta de patriotismo, como também lhes deixou uma pergunta cujo teor é claramente xenófobo e racista: “Porque é que não voltam para os vossos países e vão ajudar os lugares de onde vieram e que estão completamente estragados e infestados de crime? Esses lugares precisam muito da vossa ajuda. Portanto, podem ir o mais rapidamente possível”

Em princípio, uma mensagem deste teor seria suficiente para arrasar a imagem de um qualquer presidente ou candidato a presidente, mas nos tempos que correm, o populismo tem uma capacidade de exploração aparentemente inesgotável.