Editorial: Os valores espirituais da dimensão ecológica

Foi assinada em 24 de maio de 2015 a segunda Carta Encíclica do Papa Francisco (a primeira fora “Lumen Fidei”, A Luz da Fé, publicada em 2013). A primeira publicação verificou-se em 18 de junho de 2015, há quatro anos.

Por M. Correia Fernandes

A maior novidade desta encíclica encontra-se na sua temática: “Sobre o cuidado da casa comum”. As reações, mesmo laicas, ao seu conteúdo exprimiram sentimentos de aprovação e de reconhecimento, provindos de sectores muito diversos da sociedade. A Voz Portucalense na ocasião colaborou, com a associação “Campo aberto” na realização de um colóquio em que se fizeram ouvir e dialogar pessoas e entidades atentas aos problemas da natureza e da ecologia.

Ao recordar agora este quarto aniversário do documento, por altura da celebração do Pentecostes, dia em que foi assinado, a efeméride constitui um tempo oportuno para reencontrar as linhas directrizes desta capacidade do Pontífice de ir ao encontro ou de estar sempre junto das realidades concretas do mundo de hoje, esta capacidade de transformar a teologia em presença, em leitura das condições humanas, das pessoas e das situações.

Uma das dimensões mais dinamizadoras é a proposta de um olhar diferente para o universo e para o planeta, que substitua o “paradigma tecnocrático” do império tecnológico, por um paradigma da centralidade da pessoa, do respeito pela vida, do trabalho humanizado, que supere um antropocentrismo absoluto e o relativismo moral e cultural.

Uma das ideias mais ricas e potencialmente  produtivas propostas pela encíclica “Laudato Sì” é o conceito de ecologia humana, que desenvolve também em ecologia cultural e ecologia integral. Estamos habituados a falar e portanto a pensar a ecologia apenas na sua dimensão das realidades ligada à natureza, às coisas materiais e à tecnologia que as suporta e as conduz. Pensam os teóricos na natureza, nos rios, nas barragens, na exploração do petróleo, nos coutos mineiros, nos oceanos, nos montes e vales, nos pinheiros ou nos eucaliptos, no dióxido de carbono e no buraco do ozono. Poucos pensam que a ecologia começa pela pessoa humana e pela anterior relação desta com a natureza. Falar de ecologia é uma atitude humana, cuja humanidade se perde quando a centramos apenas na terra.

Por isso há que reler a carta do papa Francisco como uma chamada de atenção à humanidade para que reforme a si mesma antes de pensar em reformar o universo.

Isto não será novo, é mesmo anterior ao homem, tal como recorda o texto papal: “O conjunto do universo, com as suas múltiplas relações, mostra melhor a riqueza inesgotável de Deus”. E recorda o mestre Tomás de Aquino: a bondade suprema do Criador «não pode ser convenientemente representada por uma só criatura». Por isso, “a interdependência das criaturas é querida por Deus… nenhuma criatura se basta a si mesma, todas existem na dependência umas das outras, para se completarem mutuamente.  Assim, toda a ecologia da natureza começa pela pessoa. É esta uma das dimensões mais vivas do documento.

A ecologia envolve também o cuidado das riquezas culturais da humanidade, no seu sentido mais amplo. É a cultura, no seu sentido vivo, dinâmico e participativo, que deve fazer repensar a relação do ser humano com o meio ambiente.

Uma ecologia equilibrada deve pois preservar a pessoa, as tradições, a sabedoria ancestral para a traduzir nas novas invenções e realidades. Importa integrar a ecologia na vida quotidiana das pessoas, no respeito pelo equilíbrio natural e social e pelo bem comum.

A última etapa do texto propõe um “grande desafio cultural, espiritual e educativo” lembrando que na ecologia humana se deve incluir a espiritualidade, a capacidade do transcendente, o que deveria verificar-se na educação, na ação política, em ordem a uma maior profundidade existencial. A isto chama a “cidadania ecológica” que passa pela escola, pela família e pelos meios de comunicação, numa verdadeira “conversão ecológica”.