Mensagem (38): Levantamentos

Já há tema e mote para as próximas Jornadas Mundiais da Juventude. Refere-se a Nossa Senhora e à sua visita a Santa Isabel: “Maria levantou-se e partiu apressadamente” (Lc 1, 39). Levantou-se, saiu da sua zona de conforto, enfrentou o desconhecido e os perigos. E partiu. Partiu, apenas, com um objetivo: ser útil, servir, ajudar a prima portadora do que, em linguagem de hoje, poderíamos chamar uma gravidez de risco.

Esta é a metáfora da atitude humana sadia. A qual, no cristão, deixa de ser uma simples manifestação de boa vontade para se tornar um imperativo moral. É que, na sua consciência, ressoam sempre as palavras insilenciáveis do Mestre: “Como eu vos fiz, fazei vós também” (Jo 13, 15).

Curiosamente, há quem imponha os antípodas desta atitude. Por exemplo, o governo italiano, com uma perigosíssima deriva fascizante, fez uma lei que condena quem prestar auxílio aos náufragos do Mediterrâneo, essas vítimas que não sabem ao que vêm, porquanto apenas lhes acenaram com o fantasia de que, do outro lado do mar, há pão com fartura.

Vítima dessa lei, para além de outros, é o nosso concidadão Miguel Duarte. Era tripulante do navio Iuventa, embarcação gloriosa, pois já salvou mais de 14.000 desses migrantes. Agora, sujeita-se a uma pena de prisão de vinte anos. Crime? Salvou da morte os que o Ministro do Interior, Salvini, desejaria ver morrer afogados.

É terrível. A partir da parábola do «bom samaritano», o Ocidente foi interiorizando a obrigação de prestar ajuda, mesmo ao inimigo. E fizeram-se leis que obrigavam a tal. Agora, um governo que, como o juiz iníquo, “não teme a Deus nem respeita o homem” (Lc 18, 4), impõe a obrigação de deixar morrer. Isto é, passamos do preceito moral da misericórdia à selvajaria decretada e à animalidade imposta pela força da lei.

Neste momento grave, tem de se impor a força da convicção ou a alma mais profunda da cultura ocidental. E parece que já está a acontecer. Tem de se dar um verdadeiro «levantamento» de protesto, uma afirmação de revolta moral, uma indignação perante essa baixeza. E se for preciso, há que chegar à desobediência cívica.

Mas, fundamentalmente, já que «levantar-se e partir apressadamente» para o serviço quotidiano do irmão. Demonstrando, assim, que a nossa cultura se opõe à dos lideres tiranos.

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