Editorial: Um crime abjecto

Repetiu-se o crime abjecto de assassinar inocentes durante a oração pública. Desta vez, foram crentes muçulmanos que celebravam o culto de sexta-feira na Nova Zelândia. Há pouco mais de um ano, foram os cristãos que celebravam o Domingo de Ramos em Alexandria. A série é interminável nos últimos tempos.

Por Jorge Teixeira da Cunha

Sobre a violência homicida tudo já foi dito e nada está dito em definitivo. Abundam discursos e perspectivas, mas o mal absoluto não cabe nas palavras da nossa razão, pois o maligno não tem rosto e disfarça de mil modos a sua evidência luciferina. O crime contra reuniões de oração tem uma especial gravidade pois atenta contra a primeira das liberdades que é a liberdade religiosa.

A reunião orante das grandes religiões é o exercício mais nobre da humanidade dos seres humanos e a manifestação maior daquilo que chamamos a dignidade humana. Quando o crime transpõe este último limite e põe em causa este direito de reunião pacífica, o nosso tempo mostra o maior sinal do aviltamento a que chegamos. Deixou de ser percebido o limiar do respeito mais elementar pelo valor moral.
Num belo poema chamado “Elsinore”, Sophia de Mello Breyner compara o crime antigo que “era um corpo estranho circunscrito” e que “não pertencia à natureza das coisas” a outro em que “o inferno vomitava a sua pestilência” e em “o mal não se via: era apenas/Um leve sabor a podre que fazia parte/ Da natureza das coisas”. É um terrível diagnóstico sobre certos aspectos do nosso tempo, um dos quais é a violência contra crentes. Mesmo quando a motivação do crime não é religiosa, como é o caso da Nova Zelândia, há uma dimensão de irrespeito por aquilo que é sagrado que constitui um sintoma preocupante.

Mas no nosso mundo que cresce lentamente para a liberdade não deixa de haver sinais positivos. Um dos mais significativos foi o encontro do Papa Francisco com um alto responsável islâmico em Abu Dahbi e a declaração que ambos subscreveram em favor do diálogo inter-religioso e da firme condenação da violência na base do mau entendimento da crença religiosa. Este diálogo é um sinal do futuro de paz e de liberdade. O diálogo das religiões, o progresso delas na fidelidade a Deus, o aprofundamento da experiência religiosa autêntica são uma condição indispensável para que o mundo conflitual em que vivemos tenha futuro.

Eis um passo desse texto: “Ao concluir, almejamos que esta Declaração: seja um convite à reconciliação e à fraternidade entre todos os crentes, mais ainda, entre os crentes e os não-crentes, e entre todas as pessoas de boa vontade; seja um apelo a toda a consciência viva, que repudia a violência aberrante e o extremismo cego; um apelo a quem ama os valores da tolerância e da fraternidade, promovidos e encorajados pelas religiões; seja um testemunho da grandeza da fé em Deus, que une os corações divididos e eleva a alma humana”.

Pela voz do Papa Francisco e do Grão Imame de Al-Azhar Ahmad Al-Tayyeb as duas religiões principais do mundo colocam-se do lado da paz e do diálogo e da liberdade. Por isso, quem se coloca do lado da violência não pode nunca dizer que que está do lado de Deus nem dos autênticos valores da civilização.