França: revolução ou sobressalto?

O que aconteceu em Paris no último fim de semana constituiu uma surpresa chocante para todos aqueles que se habituaram a ver a França não só como um uma sociedade rica e desenvolvida, mas também como um país o onde a liberdade convive com o respeito e a tolerância.

Por António José da Silva

Manifestações de protesto não constituem novidade na história de qualquer país democrático e, logicamente também na história da França. De qualquer modo, que essas manifestações tenham atingido o grau de violência que caracterizou o comportamento dos grupos que desafiaram o governo e puseram em causa o património comum e particular dos franceses é que foi verdadeiramente surpreendente e chocante.

Independentemente das razões mais ou menos justificadas que estiveram na origem dos protestos, os chamados coletes amarelos deram uma profunda machadada no prestígio internacional que a França conseguiu manter ao longo da sua história recente, não obstante as crises sociais e políticas que teve de enfrentar em alguns momentos. As imagens chocantes a e ameaçadoras que certamente correram o mundo vão ficar na memória de todos aqueles que olhavam para aquele país como a pátria da democracia, da cultura e da civilização.

O pretexto inicial para o desencadear dos protestos foi o aumento do preço dos combustíveis, um aumento que teve alegadas e importantes motivações ecológicas, mas que os consumidores atribuíram simplesmente, a uma política gananciosa do governo que, tal como acontece noutros países, pretende arrecadar dinheiro a qualquer preço. Rapidamente as queixas contra esse aumento ganharam uma dimensão mais alargada, transformando-se em protestos generalizados contra a política fiscal do executivo, uma matéria que é facilmente partilhada por todos os cidadãos em qualquer país. Não admira pois que tenha crescido rapidamente por toda a França o número dos
chamados coletes amarelos.

Ninguém suporta facilmente a perda de privilégios ou a descida do seu nível de vida. Certamente por isso, as reivindicações dos coletes amarelos tiveram uma aceitação alargada, pelo menos até ao momento em que os protestos assumiram contornos de uma violência que a grande maioria dos cidadãos rejeita como exagerada e incompatível com a tradição civilizacional do país.

Neste momento, é ainda cedo para prever como é que irá terminar este sobressalto social e político que agitou e certamente continuará a agitar a França por mais algum tempo, mas acreditamos que a ameaça dos coletes amarelos não passará disso mesmo: um sobressalto. Só que este deverá servir para alertar o seu governo.