Misericórdia do Porto apresentou História da Instituição

A Santa Casa da Misericórdia do Porto promoveu na quinta feira, 27 de setembro, na sua igreja privativa da rua das Flores, no Porto, a apresentação da obra “Sob o manto de Misericórdia”, um percurso histórico da instituição.

Por M. Correia Fernandes

Foi em março de 2013, que a Misericórdia do Porto e o Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica celebraram um protocolo com o intuito de encetar o desenvolvimento de um ambicioso projeto de investigação e de publicação de uma obra que versasse sobre a História desta Santa Casa até à atualidade.

Quase três anos de profundos estudos, efetuados por mais de 30 investigadores, culminaram na produção desta obra, organizada em quatro volumes, que abarcam o percurso desta instituição desde a sua fundação em 1499 até aos nossos dias. Dada a importância desta Misericórdia, esta publicação aborda não apenas a sua história, como a da cidade do Porto e do país. Esta iniciativa resultou da vontade do Provedor da Misericórdia do Porto, António Tavares, com o apoio do Mesário do Culto e Cultura da instituição, Francisco Ribeiro da Silva.

Na verdade, a anterior iniciativa de compilação de uma História, remonta aos anos 20 do século passado. Este projeto foi, também, impulsionado pelo, então Bispo do Porto, hoje Patriarca de Lisboa, Dom Manuel Clemente, que fará a apresentação da obra. O objetivo primordial pretende que exista uma reflexão histórica sobre uma realidade (a instituição, com as suas estruturas, personagens, dinamismos), potenciando o seu conhecimento e projetando a continuidade da investigação. Daí o seu subtítulo conter a palavra “contributos”, não porque seja tímida ou limitada, mas porque pretende incentivar a reflexão e a problematização do já conhecido.

A obra está organizada em 4 volumes. O primeiro aborda o período das origens (de 1499 a 1668); o segundo, de 1688 a 1820; o terceiro de 1820 a 1910; o quarto de 1910 até à atualidade. De notar a simbologia das datas:1499, data da fundação, na esteira do projeto da rainha D. Leonor; 1688, reconhecimento oficial da independência de Portugal após a Restauração; 1820, revolução liberal do Porto; 1910, implantação da República.

Na sessão de apresentação, que contou com a presença do Cardeal Patriarca Manuel Clemente e do Bispo do Porto Manuel Linda, usaram da palavra; o Provedor, António Tavares, que recordou Artur Magalhães Basto, que em 1934 lançara já um projeto de obra semelhante e o impulso dado por Manuel Clemente, então Bispo do Porto, em 2013; Francisco Ribeiro da Silva evidenciou o trabalho de Magalhães Basto, “o maior historiador do Porto” e o sentido da obra: relação entre a história e a cultura, a colaboração entre instituições da cidade. Inês Amorim, coordenadora da obra, salientou o valor do trabalho de equipa, espaço aberto à interação de muitas disciplinas, como a economia, a arquitetura ou a educação, propondo a continuidade do trabalho para o futuro. O Diretor do Centro de Estudos da História Religiosa, Paulo Fontes, abordou no significado da colaboração entre instituições de investigação em disciplinas diferenciadas, o que enriquece a visão global.

Por fim, Manuel Clemente evidenciou a importância da ação das Misericórdias e o valor institucional e social, a capacidade de adaptação dinâmica que manifestaram e a abertura de resposta às necessidades sociais. Acentuou que as forças modernas não devem esquecer a ação das Misericórdias e o seu valor institucional histórico, afirmando que muitas vezes as próprias instituições da cidade bateram à porta da Santa Casa, dando valor a esta relação com outras entidades: trata-se de uma realidade global, também com muitas limitações mas também base de muitas propostas: o que distingue o espírito da Misericórdia é esta capacidade de colaboração com as instituições da sociedade.

Manuel Linda, refletindo sobre o valor da obra, citando a expressão “As causas são as mães da cousas”, falou das vidas com sentido dos que se lançaram aos projetos, como as ordens terceiras. Recordou que os acontecimentos têm como centro o espaço da Sé, e confrontou o urbanismo da cidade com o urbanismo do espírito. Acentuou que
esta obra mostra como a História escrita se pode tornar uma história sentida, felicitando o Provedor António Tavares e o Mesário do Culto e Cultura, Francisco Ribeira da Silva e o trabalho dos investigadores que deram corpo ao projeto.

No final, o organista Filipe Veríssimo executou uma composição festiva e brilhante ao órgão histórico da igreja da Misericórdia, realidade também simbólica do diálogo entre a arte e a celebração da fé.