Para o “Dia da Criança”

Por João Alves Dias

Foi no dia 15 – “Dia Internacional da Família” (ONU) – numa “escola primária” do Porto. Enquanto visitavam os desenhos dos filhos sobre o tema, alguns pais falavam das suas “angústias” à hora da refeição. Então, um casal mais velho aproximou-se e contou: -“Já lá vão uns anitos… No dia 15 de agosto, fomos a uma festa em Soutelo do Douro. À hora do almoço, o nosso filho, de quatro anos, pouco comeu. Não insistimos mas avisámo-lo que, durante a tarde, nada lhe seria dado, mesmo que tivesse fome. E assim foi… Ao fim do dia, os altifalantes anunciaram que, à porta da Confraria, iria ser distribuído pão com marmelada às crianças que se encontrassem no recinto. E, surpresa, quem era o primeiro da fila? Ele mesmo, o mais pequenito de todos. E com que vontade, comeu dois pães!…

Esta conversa fez-me lembrar uma reportagem (JN, 2/9/2017) com o resultado dum estudo em que 20% das 959 crianças analisadas apresentavam “perturbações alimentares” devido a uma “restrição alimentar severa” que faz com que crianças muito pequenas “recusem novos alimentos ou, por exemplo, só comam fruta ou apenas iogurtes de determinada marca ou sabor”.

Uma educadora comentava: “A família tem que comer sopa, fruta, legumes, se quer que a criança também coma”.

E um pediatra acrescentava: “Conheço pais cansados e crianças mal-educadas. O problema está nos pais e não nas crianças. Se forem habituadas a comer de tudo, comem de tudo. As crianças comem o que lhes sabe melhor e o que não lhes custa a mastigar. Cabe aos pais, pelo exemplo e pela perseverança, ensinar o resto”. E explica: “São muito raros os distúrbios em crianças. Ninguém morre de fome numa casa onde há comida”. E aconselha: ”Se a criança não come sopa ou sólidos, por exemplo, o meu conselho é que não lhe ofereçam mais nenhum alimento até que coma o que se pretende. Muita paciência e calma para os pais e esperar que a criança tenha fome”. E acrescenta: “É claro que as crianças têm direito a ter o seu paladar, mas são sempre os pais que mandam. E os adultos não podem dispensar essa função nem deixar a criança decidir o que come. Tem que comer de tudo”.

A refeição pode ser um momento de especial tensão onde a autoridade dos pais deve ser exercida com firmeza mas sem ansiedade nem autoritarismos exagerados, e sem palavras ríspidas nem ameaças. Muito menos aos berros… Acima de tudo, vale o exemplo. Como se pode obrigar uma criança a comer sopa se nenhum dos adultos presentes o faz nesse momento?

É na meninice que se forma “o núcleo mais duro” da nossa personalidade, a que o filósofo François Jacob chama “estátua interior”. É na infância que se alicerça “o nosso banco de dados” de que fala o psiquiatra Augusto Cury. “Em adulto, as nossas escolhas são pautadas pela base de dados que já temos.” A sabedoria popular diz, simplesmente: “de pequenino se torce o pepino” e “menino farto não é comedor”.