Jovens não têm papas na língua

Por Rui Osório

“Desejamos uma Igreja acessível através das redes sociais e dos vários espaços sociais”, assinala o documento conclusivo dos trabalhos da reunião pré-sinodal que decorreu, entre segunda-feira e sábado da semana passada, em Roma, para preparar a assembleia do Sínodo dos Bispos, marcada para outubro próximo, no Vaticano, sobre o tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.

Os 300 jovens de todo o mundo, três dos quais portugueses, reconhecem que “as redes sociais são uma parte significativa da identidade e do modo de vida dos jovens; e os ambientes digitais têm um grande potencial para unir pessoas por cima de distâncias geográficas, como nunca antes”. Também sabem que a tecnologia pode potenciar situações de isolamento e “aborrecimento”, limitando os contactos a quem pensa da mesma forma. Não foi só no conteúdo que os jovens marcaram a sua singularidade, mas na forma livre com que o fizeram. É de aplaudir que a Igreja saiba dar-lhes voz e vez, ainda que ouça o que não gostaria de ouvir. Os jovens não têm de ser caixas de ressonância do discurso oficial. Não escondem o “desacordo” que existe entre muitos deles em relação a ensinamentos da Igreja Católica nas áreas mais “controversas”, como a contraceção, aborto, homossexualidade ou o casamento.

Não se alarmem os escandalizadiços, pensando que vai mudar tudo só por os jovens o desejarem. Saibam que os jovens “em conflito” com o ensinamento oficial da Igreja querem “continuar a ser parte da Igreja” e reconhecem que muitos outros aceitam esses ensinamentos como “fonte de alegria”. O documento final, entregue ao Papa Francisco, convida os católicos a ir ao encontro das pessoas nos locais onde elas socializam, nos bares, cafés, estádios ou espaços culturais, além de locais onde se vivem dificuldades, como “orfanatos, hospitais, periferias, zonas de guerra, prisões, comunidades de recuperação e bairros de luz vermelha”.

Em síntese, uma “Igreja autêntica, uma comunidade transparente, honesta, convidativa, comunicadora, acessível, alegre e interativa”. Nem demasiado severa ou moralista, mas “Igreja acolhedora e misericordiosa”, que ama todos e não se se esconde nos tabus, seja a sexualidade, a toxicodependência, os casamentos falhados, as famílias desagregadas, os problemas sociais, a criminalidade organizada, o tráfico de seres humanos, a violência, a corrupção, o feminicídio, as perseguições e a degradação ambiental. É nesse terreno resvaladiço que reclamam da Igreja “inclusão, acolhimento, misericórdia e ternura”, a que somam, para o mundo, a paz, a “ecologia integral” ou uma “economia global sustentável”. É em Igreja que os jovens marcam encontro com Jesus Cristo, saudavelmente inquietos e sem papas na língua na vivência e na partilha intergeracional da sua fé!

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