Em Dia de S. José

Por M. Correia Fernandes

É o Dia do Pai, a solenidade de São José. Saudamos que o seja, mesmo sabendo que ele não era o pai de Jesus, mas apenas o que na tradição de chamava “Pai putativo”.

No entanto, no próprio evangelho Jesus é chamado “filho do carpinteiro”. E Maria diz a Jesus “Teu pai e eu andávamos inquietos à tua procura” (Lucas, 2,46). Participa por isso do conceito humano de paternidade e não do menos humano, agora em uso, de “progenitor”, que constitui a redução de uma nobre atitude humana a uma mera e limitada ação biológica. O que mostra como no nosso tempo os valores da pessoa são esquecidos ou substituídos, como acontece também na noção de “parentalidade”, substituição da paternidade ou maternidade por um mero conceito social ou jurídico. A dinâmica criadora da pessoa é assim substituída por uma mera função legal.

Descendente da casa real de David, segundo documenta a genealogia apresentada no início do Evangelho de S. Mateus (Mt 1,1-17), é venerado como o padroeiro universal da Igreja Católica, padroeiro dos pais, das famílias e dos carpinteiros, que nos dias que correm é profissão desvalorizada, porque os móveis são coisas pouco humanizadas e nascem impessoalmente das fábricas em vez de saírem das mãos duras e calejadas dos carpinteiros. Dantes não era assim. O carpinteiro era “artista”, trabalhava no seu espaço próprio (que não era ateliê nem estúdio, mas era lugar nobre de construção). Ia à casa das pessoas para lhes elaborar os móveis adequados a cada lugar ou espaço. Era como se fosse um de nós, atento às nossas necessidades.

Elaborava com arte e com alma as mesas, as escadas de madeira, os armários e os bancos e até as escadas para as ramadas. A celebração de São José merece na Igreja uma atenção litúrgica especial. Com os apóstolos Pedro e Paulo e João Batista, é o único santo que merece a categoria de “solenidade”, mesmo que a sua memória seja recordada habitualmente na Quaresma. A ele são dedicadas igrejas, menos que a outros santos, mas com maior dimensão salvífica. A ele se dedicam nos templos, como apelo à piedade e à veneração, muitas esculturas disponíveis nas nossas igrejas urbanas ou rurais. A piedade popular dá-lhe muitas vezes uma dimensão excessivamente pietista e sentimental, como podemos documentar sobretudo nas pinturas, onde surge em gestos ternurentos e olhares lânguidos, ao lado do menino de açucenas. Uma das cenas frequentemente representada é a da morte de S. José. Dela não falam os evangelhos, mas lembra -a a piedade cristã. Das representações mais significativas é digna registo a que se encontra no santuário da Senhora da Lapa, em Sernancelhe, na Beira Alta, representado o acontecimento em forma escultórica, cheia de referência evangélicas: lá está Maria conjugalmente à cabeceira, lá está Jesus junto do outro lado do leito, lá está no alto a imagem do Pai, lá estão os anjos e particularmente o seu anjo da guarda, “pronto e intervir se necessário for”, como se escreve na legenda explicativa do quadro. Uma cena verdadeiramente única, que traduz a suposta raiz histórica e a certa piedade popular. Muitas são as imagens de São José que pontificam nas nossas igrejas. Algumas acompanham esta pequena referência, como a de Meinedo (enviada pela Rota do Românico), popular e pietista, e com nada de românico, mas com tudo da piedade do povo.

Mais significativa é a representação que se encontra na abadia beneditina de Cluny (no leste da França, próxima de Lyon, onde se pode observar um interessante retábulo de estilo gótico, esculpido em marfim, que dá expressão plástica ao texto do evangelho de S. Mateus, aquele em que o anúncio do nascimento de Jesus é apresentado através da visão dos olhos de S. José. É ele que recebe a mensagem de um anjo que lhe diz: “Não temas receber Maria, porque o que nela se gerou é obra do Espírito Santo. Tu pôr-lhe-ás o nome de Jesus” (Mt 1, 23). Esta narrativa vem na sequência da apresentação da genealogia de Jesus Cristo, em que José é lembrado como descendente de David e pai bíblico e legal de Jesus. Esta designação de Cluny está na base da constituição das Irmãs de S. José de Cluny, uma congregação religiosa feminina que até há pouco teve casa no Porto e atualmente em Braga, Coimbra, Fátima, Torres Novas e Lisboa entre outras localidades.

Nesta nossa cidade do Porto possui a igreja que lhe é dedicada, na paróquia de Nossa Senhora da Vitória. Parece que na Diocese do Porto não há nenhuma paróquia que lhe seja dedicada, embora a sua presença e imagem se encontre em muitas igrejas. A confraria de S. José das Taipas promoveu uma celebração neste 19 de março, presidida pelo Padre Agostinho Jardim, em que se recordava o início do pontificado de Francisco, Papa, e a ordenação episcopal do atual Bispo auxiliar do Porto, D. António Augusto Azevedo e do antigo José Augusto Pedreira, a quem destas páginas endereçamos felicitações. E em homenagem aos pais, seja-nos permitido transcrever este poema com algo de mistério: Nasceu-te um filho. Não conhecerás, jamais, a extrema solidão da vida. / Se a não chegaste a conhecer, se a vida ta não mostrou – já não conhecerás a dor terrível de a saber escondida até no puro amor. E esquecerás, se alguma vez adivinhaste a paz traiçoeira de estar só, a pressentida, leve e distante imagem que ilumina uma paisagem mais distante ainda. / Já nenhum astro te será fatal. / E quando a Sorte julgue que domina, ou mesmo a Morte, se a alegria finda – ri-te de ambas, que um filho é imortal. Jorge de Sena, “Visão Perpétua”, Moraes, 1982.