Mensagem (83): Fidelidades

A história da Igreja está cheia de fidelidades… aos mortos. Em nome de não sei que pretensa virtude, é vulgaríssimo ouvir-se dizer que o Papa morto é que era bom, que como o antigo bispo não há, que como o pároco que passou não volta mais nenhum… Nostalgias.

D. António Ferreira Gomes, que viveu duas épocas muito demarcadas na Igreja, o antes e depois do Concílio, repetia muitas vezes, cheio de conhecimento e de ironia, que é fácil ser fiel ao Papa morto. Quanto mais não seja, para estar contra o vivo.

Referia-se ao “milagre de novidade” que foi o Vaticano II. Naquela altura, muitos fiéis tinham viva a imagem hierática e soleníssima de Pio XII que marcou, efetivamente, uma época e encarnou uma mentalidade. Seguiu-se-lhe um risonho e simpático João XXIII e aqui d’El Rei que é um «popularucho», que não dá prestígio à Igreja, que as suas ideias «modernistas» vão acabar com a fé… E não fora ele e a nossa Igreja estaria desfasada do mundo a quem foi enviada pelo seu Fundador.

Mutatis mutandis, é o que se passa na atualidade. Os que se querem demarcar do Papa Francisco correm a acolher-se à sombra do Papa emérito, Bento XVI: que esse sim, era um teólogo, um sábio, que tinha um porte solene, que prestigiou o papado a ponto de usar toda a indumentária a que a um Papa tem direito, etc.

Como se disse acima, o mesmo se passa nas dioceses, nas paróquias e nos organismos eclesiais. Os que não se encaixam, os profissionais da discórdia, aqueles para quem a obediência é… para os outros, todos eles afiançam que “como o outro não há nem haverá”. Mesmo que eles próprios não acreditem nisso.

Porém, há um pormenor não despiciendo: quando se faz uma análise mais profunda, descobre-se que, curiosamente, esses que invocam o que já passou, quase sempre lhe fizeram a vida negra. Então, porque o referem agora? Remorsos? Conversão de última hora? Não. Fazem-no porque são profissionais da maledicência e da divisão e, para que estas não se tornem tão notórias, querem fazer crer que são fidelíssimos à tradição.

Mas há «fidelidades» que, como o gato, deixam o rabo de fora. Para além de serem verdadeiramente ridículas.

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