Ruanda: recuperar de um genocídio

Foto: Corinne Dufka/AFP

Há dias, um jornal português lembrava com algum relevo a passagem dos vinte e cinco anos sobre o mais chocante e conhecido dos massacres que já ocorreram na história do continente africano. Foi aquilo que ficou conhecido como o genocídio do Ruanda, um genocídio que foi levado a cabo por forças oriundas de um dos dois grandes grupos étnicos daquele país: os hutus. As vítimas principais deste massacre, que se prolongou entre os dias 17 de Abril e 15 de Julho de 1994, pertenciam á etnia dos tutsis, e dizemos vítimas principais, porque nem mesmo os hútus mais tolerantes escaparam à erupção do ódio que se apoderou dos seus irmãos. No final desta erupção de violência contavam-se mais de oitocentas mil vítimas mortais, a que se devem juntar todas as outras consequências, físicas, psicológicas e morais decorrentes de uma manifestação incompreensível de ódio colectivo. O massacre passou rapidamente a ser rotulado de genocídio e assim ficou conhecido para a História.

O pretexto para esta manifestação incompreensível de violência colectiva foi o atentado que vitimou o presidente do país, de etnia hútu, quando regressava de uma vigem e sobrevoava de avião a capital do país. Foi o pretexto ideal para ressuscitar o ódio antigo e mais ou menos camuflado que, ao longo do tempo, os hutus foram acumulando contra os tutsis a quem acusaram de responsabilidade directa nesse atentado. E começou então um massacre com requintes de uma violência que se torna mais difícil ainda de perceber e desculpar, porque o cristianismo era a religião da maioria dos ruandeses.

Foi preciso algum tempo para que o mundo se desse conta da dimensão da tragédia que se abatera sobre um país africano de pouco mais de onze milhões de habitantes e vinte e seis mil quilómetros quadrados de superfície, um país sem saídas para o mar que, no século vinte, estivera sob a influência colonial da Alemanha e da Bélgica. Até que, nos anos noventa desse século, o Ruanda experimentou de forma trágica o aumento descontrolado da rivalidade entre hútus e tutsis. E foi um aumento tão descontrolado, que essa rivalidade terminou numa das tragédias mais sangrentas da história africana, e não só.

Apesar dos múltiplos sinais do que poderia vir a acontecer, nem mesmo a ONU foi capaz de os ter percebido atempadamente, como mais tarde viria a confessar. Como viria a reconhecer também que foi demorada e já tardia a sua intervenção com vista a salvar ainda alguma coisa. No entanto, o mais surpreendente desta história trágica tem sido, conforme relatam os jornais, a enorme capacidade de recuperação do país.