A Igreja em tempos de emergência

Por Paulo Gonçalves

Presidente da Cáritas Diocesana do Porto

 

“(…) Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. (…)”

Papa Francisco 

Vivemos uma era de exceção. A situação de emergência nacional, motivada por um vírus de nome pomposo, constitui um dos maiores desafios dos nossos tempos. Desde logo, trata-se de um exigente desafio à sociedade atual. Um vírus que não reconhece raças, credos ou estatutos sociais e a todos coloca no “mesmo barco”, nas palavras do Papa Francisco, deveria motivar uma reflexão profunda.

Se, do ponto de vista clínico, todos somos iguais aos olhos de uma pandemia, no quotidiano acentuam-se as diferenças. As exigentes, mas porventura necessárias, medidas empreendidas pelos Governos para atenuar uma mais que expectável recessão à escala internacional, permitirão apenas atenuar uma escalada do desemprego, de pobreza e de fome.

No final, serão os marginalizados, os excluídos e os mais frágeis que vão sofrer. Resta-nos, uma vez mais, aguardar que a caridade e a nobreza de uns quantos – sempre prontos como em tantas outras circunstâncias da nossa vida colética -consigam mitigar os efeitos deste vírus rasteiro e maldito.

A Igreja, uma vez mais a Igreja, tem desempenhado um papel de primeira importância. Ainda que muitas vezes de forma discreta, está na linha da frente do combate à pobreza e na defesa de vida. Como se impõe. Como invariavelmente tinha de ser.

Também as instituições de solidariedade social e os seus milhares de voluntários, de Norte a Sul, merecem algumas palavras. Primeiro, de agradecimento; depois de incentivo e de encorajamento, pelo trabalho invisível, mas muito meritório, que têm desempenhado.

Na Caritas Diocesana do Porto, são já sete as décadas de apoio aos mais desfavorecidos. A principal missão da Cáritas Diocesana do Porto é o acolhimento, atendimento e apoio social à comunidade. Por um lado, a Cáritas congrega e partilha bens com as paróquias e grupos socio-caritativos da Diocese do Porto, espalhados por 22 vigararias e 477 paróquias, num universo distribuído por 26 cidades, que acolhem mais de dois milhões de habitantes. Por outro, acolhe e atende, apoiando com caráter de emergência as famílias.

É, precisamente, ao nível dos atendimentos urgentes, de emergência, que mais se notam os primeiros impactos da pandemia. Cerca de metade dos novos pedidos provêm de cidadãos estrangeiros, em especial do Brasil, da Colômbia ou até mesmo da Venezuela. Todos sem exceção, independentemente das geografias, mergulhados num mundo de incertezas. Pessoas, muitas vezes, ligadas a uma economia informal que ainda subsiste nas profundezas da sociedade.

Os tempos são de indefinição, de incerteza e de profunda desconfiança. Parafraseando o Papa Francisco, “todos seremos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento”. Na Caritas Diocesana do Porto não renegaremos a nossa tradição e a nossa história e seremos intransigentes na defesa das famílias desprotegidas, sem retaguarda, e sem futuro.