Domingo III da Quaresma

15 de Março de 2020

 

Indicação das leituras

Leitura do Livro do Êxodo                                                                    Ex 17,3-7

«Baterás no rochedo e dele sairá água; então o povo poderá beber».

 

Salmo Responsorial                                            Salmo 94 (95)

Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações.

 

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos                      Rom 5,1-2.5-8

«Mas Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores».

 

Aclamação ao Evangelho           cf. Jo 4,42.15

Louvor a Vós, Rei da eterna glória.

Senhor, Vós sois o Salvador do mundo:

dai-nos a água viva, para não termos sede.

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João                 Jo 4,5-42

«Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço».

«Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede. Mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede».

«Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo».

 

Viver a Palavra

Na nossa caminhada quaresmal rumo à Páscoa do Senhor somos convidados a sentarmo-nos com Jesus à beira do poço. Passamos os nossos dias a correr entre os múltiplos afazeres do nosso quotidiano e às vezes parece tão escasso o tempo para serenar e descansar. Neste frenesim quotidiano marcado pelas rotinas, pela sucessão de tarefas a realizar e horários a cumprir, irrompe Jesus, o enviado do Pai, o Deus das surpresas que enche e preenche de novidade os nossos dias. O tempo da Quaresma é o tempo favorável e especialíssimo para abrir o nosso coração ao Deus que nos visita e surpreende sempre com o Seu amor e o Seu perdão. Por isso, se o tempo da quaresma é tempo de penitência e conversão, é também «tempo para cantar a alegria do perdão» (Ir. Roger). A experiência da penitência e da conversão abre a nossa vida à alegria da vida reencontrada, à experiência feliz da transformação do coração.

«Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço». Esta poderia ser apenas uma indicação cénica para situar Jesus no contexto desta passagem evangélica. Contudo, as acções de Jesus devem ser sempre lidas em chave teológica, mesmo quando parecem ser apenas subsidiárias da narrativa. Na Sagrada Escritura, a acção de sentar apresenta diferentes significados: a acção de ensinar na relação mestre/discípulo (Mt 5,1), a evocação da majestade de Deus (Dn 7,9) ou a referência escatológica do Filho do Homem na sua glória (Mt 25,31). Contudo, aqui Jesus senta-se cansado e pede água à Samaritana e no evangelho estão bem identificados aqueles que se sentam para pedir: são os mendigos. Mendigos como aqueles que estão sentados à beira da estrada, na saída de Jericó, que ao ouvirem que Jesus está a passar começam a gritar (Mt 20,30-31) ou então Bartimeu, um mendigo cego, sentado na beira do caminho (Mc 10,46).

Jesus, cansado do caminho, senta-se á beira do poço e pede de beber à samaritana. Este pedido como que antecipa aquele grito da Cruz: «tenho sede». Misterioso Senhor que, para dar, pede! Jesus apresenta-se como mendigo do homem, com uma sede de salvação que nos desconcerta. Assim nos recorda Simon Weil quando afirma: «Deus espera como um mendigo, imóvel e silencioso, diante de qualquer um que lhe estenda um bocado de pão. O tempo é a espera de Deus que mendiga o nosso amor».

Jesus tem sede. Sede da água que dessedenta os que caminham nas estradas poeirentas mas também sede de salvação. Sede de tocar as nossas sedes, de contactar com os nossos desertos e as nossas feridas. Ele quer salvar cada homem e cada mulher e, independentemente da sua vida de pecado ou do seu errado caminho, Ele quer oferecer uma oportunidade nova de vida plena e cheia de sentido.

Jesus encontra-se com a Samaritana ao meio-dia, precisamente a mesma hora em que Jesus é apresentado por Pilatos à multidão (Jo 19,13-14). Como afirma o Cardeal Tolentino de Mendonça: «só compreenderemos verdadeiramente o diálogo entre Jesus com a Samaritana se tivermos diante dos olhos o dom sem limites que Jesus faz de si na cruz». Na verdade, o meio-dia é a hora central do dia, o ponto que determina a passagem de uma parte para outra da jornada. O meio do tempo assinala um antes e um depois, o meio do caminho e a encruzilhada da vida.

O encontro com Jesus marca assim um rumo novo na nossa história, pois sempre que abrimos o nosso coração ao verdadeiro encontro com Jesus é «meio-dia», é hora decisiva para avançar com um alento renovado e uma vontade nova de fazer da nossa vida doação.

 

Homiliário patrístico

Dos Tratados de Santo Agostinho, bispo,

sobre o Evangelho de São João (Séc. V)

Veio uma mulher: esta mulher é figura da Igreja, ainda não justificada, mas já a caminho da justificação. É disto que iremos tratar. A mulher veio sem saber o que ali a esperava; encontrou Jesus, e Jesus dirigiu-lhe a palavra. Vejamos a razão por que veio uma mulher da Samaria para tirar água. Os samaritanos não pertenciam ao povo judeu, não eram do povo escolhido. Faz parte do simbolismo da narração que esta mulher, figura da Igreja, tenha vindo dum povo estrangeiro; porque a Igreja havia de vir dos gentios, dos que não eram da raça judaica.

Escutemo-nos a nós mesmos nas palavras desta mulher, reconheçamo-nos nela, e nela dêmos graças a Deus por nós. Era uma figura, não a realidade; começou por ser figura e veio a tornar-se realidade. De facto, ela acreditou n’Aquele que desejava fazer dela figura de nós mesmos. Veio para tirar água. Vinha simplesmente tirar água, como costumam fazer os homens e as mulheres.

Jesus pede de beber e promete dar de beber. Apresenta-Se como necessitado que espera receber, mas é rico para dar em abundância. Se conhecesses o dom de Deus… O dom de Deus é o Espírito Santo.

 

Indicações litúrgico-pastorais

  1. No dia 19 de Março a Igreja celebra a Solenidade S. José, Esposo da Virgem Santa Maria. Celebrando aquele que recebeu a missão de ser pai de Jesus, este dia é também de dicado a todos os pais. Esta ocasião é uma oportunidade pastoral para reunir as famílias e celebrar o dom da paternidade. Pode fazer-se na solene celebração da Eucaristia com uma especial bênção para os pais ou aproveitando o fim-de-semana seguinte para uma actividade catequética mais alargada envolvendo os pais e os filhos. Neste dia assinala-se também o sétimo aniversário do início do pontificado do Papa Francisco. Esta ocasião é uma oportunidade para dar graças a Deus pelo dom da sua vida e do seu ministério. Pode fazer-se uma especial celebração de acção de graças com o canto do Te Deum, incluir esta intenção na Eucaristia, de modo particular na Oração Universal ou uma actividade formativa ou de reflexão quaresmal sobre os vários desafios que o magistério do Papa Francisco nos tem colocado.

 

  1. Para os leitores: na primeira leitura, deve haver um especial cuidado com as palavras de mais difícil pronunciação: «altercar», «altercação», «Massa» (deve pronunciar-se Mássá) e «Meriba» (deve pronunciar-se Méribá). Neste texto, deve ainda ter-se em atenção o texto em discurso directo, articulando bem as diferentes interrogações, que devem ser proclamadas evitando a exagerada acentuação interrogativa no final de cada frase, mas acentuando a partícula interrogativa ou a forma verbal. A segunda leitura exige uma acurada preparação assinalando as pausas e as respirações, pois o texto é marcado por frases longas e com várias orações.

Sugestões de cânticos

Entrada: Olhai para mim Senhor – A. Cartageno (CEC II 51); Salmo Responsorial: Se hoje ouvirdes a voz do Senhor (Sl 94) – C. Silva (CN 900); Aclamação ao Evangelho: Louvor a Vós, Rei da eterna glória | Senhor, Vós sois o salvador do mundo. – F. Santos (BML 55); Ofertório: Parce, omine, parce populo tuo (CN 798); Comunhão: Quem beber da água que Eu lhe der – A. Oliveira (CN 836); Final: Ditosos os que Te louvam sempre – F. Santos (CN 370).