Batismo de crianças? Sim, mas …

Nos princípios da Igreja e hoje, de novo, cada vez mais – e não só na chamada «missão “ad gentes”» –, o Batismo de adultos era e é a regra.

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

Nesses casos o catecumenado tem um lugar decisivo, dispondo para o acolhimento do dom de Deus nos 3 sacramentos do Batismo, Confirmação e Eucaristia. O objetivo do Catecumenado é ajudar os catecúmenos a responder à iniciativa divina e, em união com a comunidade eclesial, amadurecer a sua conversão e a sua fé. Trata-se de um processo integrado de «formação e aprendizagem da vida cristã integral» (AG 14).

Entretanto, como refere o Catecismo da Igreja Católica, «a prática de batizar as crianças é tradição imemorial da Igreja» e, possivelmente, remonta à época do Novo Testamento (CatIC 1252; cf. BC, n. 2). É o caso do Batismo de casas inteiras, atestado em Act 16, 15.33; 18, 8; 1 Cor 1, 16…. Do ponto de vista histórico, é inegável que o aprofundamento e difusão da doutrina do pecado original incentivou esta prática pastoral e continua a ser um dos seus principais argumentos justificativos (cf. CatIC 396-409). Mas essa não é a única justificação do pedobatismo. Na verdade, são tão preciosos os efeitos «positivos» do Batismo (graça da filiação divina…) que não se compreenderia que a Igreja e os pais não proporcionassem às criancinhas tão grande tesouro. Deste modo, os próprios pais cristãos assumem o papel de sustentadores da vida que Deus confiou aos seus cuidados. Esta prática põe ainda de manifesto o carácter absolutamente gratuito da graça da salvação

A propósito desta problemática, importa esclarecer como no Batismo de crianças é salvaguardada a necessária articulação entre a fé e o Batismo. Com efeito, sendo o Batismo o «sacramento da fé» por excelência, alguns pensam que essa sua identidade só será preservada se ele for conferido apenas a sujeitos capazes de fazer um ato pessoal de fé. O Catecismo da Igreja Católica responde de vários modos a esta objeção:

– Há que superar uma conceção individualista do ato de fé: o sujeito da confissão de fé é a Igreja e só na fé da Igreja é que cada um dos fiéis pode dizer «eu creio».

– «A fé requerida para o Batismo não é uma fé perfeita e amadurecida, mas um princípio chamado a desenvolver-se» em todos os batizados, crianças ou adultos. Como recorda o Catecismo da Igreja Católica, «por sua própria natureza, o Batismo das crianças exige um catecumenado pós-batismal. Não se trata apenas da necessidade duma instrução posterior ao Batismo, mas do desenvolvimento necessário da graça batismal no crescimento da pessoa. É o espaço próprio da catequese». Também o Ritual inculca que, «para completar a verdade do sacramento, é, contudo, necessário que as crianças sejam, depois, educadas na fé em que foram batizadas. O fundamento desta formação será o próprio sacramento que receberam. A educação cristã, que por direito é devida às crianças, nada mais pretende do que levá-las a descobrir pouco a pouco o plano de Deus em Cristo, para que, finalmente, possam ratificar por si mesmas a fé em que foram batizadas» (CB, 3). Daí, também, as frequentes renovações das «promessas do Batismo», por exemplo, na Vigília Pascal. Daí, sobretudo, a regular e assídua participação na celebração eucarística.

– O próprio Batismo, mais do que ponto de chegada deve ser visto como ponto de partida da vida nova em Cristo.

– Os pais, padrinhos e toda a comunidade cristã têm responsabilidades específicas na defesa e desenvolvimento da graça batismal.

A partir destes pressupostos, a Igreja continua a batizar as crianças nascidas em famílias cristãs. Entende que esta prática está incluída na missão que recebeu do Senhor Ressuscitado. Naturalmente, esta solicitude deverá ser assumida, em primeiro lugar pelos casais que, unidos em matrimónio, constituem a Igreja-doméstica. Para eles, o Batismo dos seus filhos na primeira infância não é algo de facultativo mas constitui um direito e um dever (CDC, cân. 867 § 1).

Tudo isto seria pacífico se não se desse o caso de vivermos numa situação sócio religiosa marcada pelo secularismo e por um pluralismo religioso cada vez mais acentuado. É cada vez mais frequente o caso de famílias que vivem à margem, senão em rotura, com a fé cristã e que, apesar disso, apresentam os seus filhos ao Batismo alegando motivações que pouco ou nada têm que ver com a verdade deste sacramento da fé. Esta realidade, impõe a necessidade duma criteriologia pastoral. Voltaremos a este ponto.