Editorial: Uma reflexão em tempo de eleições

Há muitos cristãos perplexos sobre o sentido do seu voto nas eleições que se avizinham. E o caso não é para menos, dada a lentidão com que evolui a nossa política para se adaptar às novas condições da vida associada de hoje. As ideologias tradicionais atravessam tempos de revisão e não nos servem de muito.

Por Jorge Teixeira da Cunha

Os cristãos militam e votam nos partidos que temos. Mas podem usar a lucidez que lhes vem da fé para olharem o mundo à sua volta e escolherem as vias que correspondem aos valores que professam. Que opções parecem mais urgentes e mais conformes com os valores do Evangelho para inspirar a nossa vida democrática?

Uma primeira opção parece ir no sentido de urgir uma nova subsidiariedade ao funcionamento da instituição política. Temos um Estado pesadíssimo que se ocupa de quase tudo da vida dos cidadãos, desde o nascimento até à morte, que consome quase metade dos recursos gerados pelo trabalho, qua controla todo o saber e todas as informações.

Nessas circunstâncias, é natural que surja uma corrupção endémica e se caminhe para a ingovernabilidade. É aqui que surge a necessidade da subsidiariedade, como forma de limitação do Estado e de dar lugar às organizações da sociedade civil, na educação, na saúde, na informação e mesmo na segurança social. A ética cristã exige que o Estado deixe de ser omnisciente quanto às metas educativas, quanto aos cuidados de saúde, quanto ao planeamento da cultura.

Em segundo lugar, é necessário dizer que esta limitação voluntária do Estado tem como fim o seu robustecimento e não a sua debilitação. Dando lugar às instituições da sociedade civil, o Estado pode ser mais forte e mais eficiente para defender, regular e a fazer justiça. Um Estado obeso move-se mal e deixa-se aprisionar pelo poder dos mais fortes que manipulam em seu favor os contratos e prosseguem interesses grupais. Por outro lado, um Estado ágil e mais pequeno pode regular mais eficazmente e pode, mediante o sistema de justiça, impedir a usurpação dos bens públicos de forma contrária ao bem comum.

Em terceiro lugar, uma instituição estatal reformada pode desempenhar melhor a sua função de providenciar o bem de todos. A evolução das nossas democracias foi muito benéfica para melhorar a vida das famílias e das pessoas. Esta evolução deve-se em boa medida à inspiração cristã. Mas para cumprir a sua missão de cuidar de todos, é preciso que o Estado se cuide e se reforme. Não se compete fazer tudo para todos, mas providenciar no sentido de que tudo seja feito pelo bem de todos. Para o conseguir, tem de se libertar das tarefas executivas e concentrar-se na legislação, na regulação, na execução da justiça.

Nos dias que correm, não abundam as propostas partidárias reformistas. Compete aos cristãos formarem responsavelmente a sua opção política e confiarem o seu voto aos partidos que lhes pareçam corresponder melhor à estima dos valores evangélicos e democráticos. Sobretudo, os cristãos não podem facilitar quando se trata de afirmar que a política é só a política e nada mais. César não é Deus. É a liberdade espiritual que dá sentido às escolhas partidárias, que as possibilita e as garante. Não se pode inverter esta ordem, sob pena de tudo se tornar possível e factível, mesmo o triunfo do populismo e do totalitarismo.