Um plano oportuno mas desordenado

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

Ao introduzir o Plano Pastoral Diocesano para o próximo triénio, D. Manuel Linda, nosso Bispo, escreveu:

«Pareceu conveniente cuidarmos das próprias raízes da fé e da vida cristã dos “de dentro”, pois, como refere o Papa Francisco, “o mandamento missionário do Senhor inclui o apelo ao crescimento da fé [e] o primeiro anúncio deve desencadear um caminho de formação e de amadurecimento” (Evangelii Gaudium, 160). O ideal seria mesmo que todos pudessem chegar a dizer e sentir intimamente o conhecido brado de São Paulo: “Já não sou eu que vivo. É Cristo quem vive em mim” (Gl 2,20).

Além disto, a celebração, em 2022, da Jornada Mundial da Juventude aconselha uma particular atenção aos jovens, de modo a promover uma renovada iniciação cristã, unitária, coerente, aprofundada, em íntima ligação com os sacramentos e com o mistério de Deus. […]

Por tudo isto, propõe-se, pois, um plano trienal, baseado na iniciação ou reiniciação cristã e nos sacramentos que lhe estão inerentes, sempre ancorados no mistério de Deus e, consequentemente, nas Pessoas do Pai, Filho e Espírito Santo» [os negritos são nossos].

Vamos, pois, colocar no centro de nossa reflexão e prática pastoral a iniciação cristã no esforço de conversão e reforma a que nos desafiaram Bento XVI e Francisco nas duas últimas visitas «ad Sacra Limina» dos Bispos de Portugal.

Aquando da preparação e celebração do grande Jubileu do ano 2000, já João Paulo II tinha proposto a toda a Igreja um exercício semelhante, apenas com a particularidade de intercalar o Sacramento da Penitência antes do culminar eucarístico do Jubileu: 1997 foi o ano dedicado ao Batismo (focado na Pessoa divina do Filho, Jesus Cristo); 1998 foi dedicado à Confirmação (focado na Pessoa divina o Espírito Santo); 1999 foi dedicado à Penitência – sem dúvida porque o jubileu com a sua indulgência peculiar tem associada a ideia de remissão dos pecados – (focado na Pessoa divina do Pai); 2000 foi dedicado à Eucaristia (e focado no louvor trinitário). Sem dúvida, poderemos revisitar os estímulos (e revalorizar os muitos e variados subsídios) dessa grande caminhada, com as devidas adaptações, porque focaremos na Pessoa do Pai o ano dedicado ao Batismo e em Jesus Cristo, seu Filho unigénito, o ano da Eucaristia.

Gostaríamos de deixar aqui um pequeno reparo à explanação que foi feita da proposta diocesana e que está subjacente, por exemplo, à ordem das estrofes do hino «Como os ramos da videira» (há, sem dúvida, uma troca de ordem entre as estrofes 5 e 6). Foi certamente um lapso que se está muito a tempo de corrigir: trata-se da sequência dos sacramentos da Iniciação cristã que não é casual e, muito menos, arbitrária: Batismo, Confirmação ou Crisma e Eucaristia. O termo de chegada do processo global (evangelização, catequese, conversão de costumes e mudança de vida, oração, vida litúrgica e sacramentos da Iniciação cristã, experiência da comunidade cristã e participação na sua vida e missão…) só pode ser aquele que sempre foi: a Eucaristia, o chegar a ser o que se recebe no termo do processo: o Corpo de Cristo. Organizar todo este itinerário para terminar no Crisma só pode ser um grande (esperamos que inadvertido) equívoco.

Demos a palavra a Santo Agostinho nas suas inigualáveis catequeses mistagógicas aos seus queridos recém-batizados:

«Este pão que vedes no altar, santificado pela palavra de Deus, é o Corpo de Cristo.… Se o recebestes bem, sois o que recebestes. Diz, com efeito, o Apóstolo: Somos muitos, mas somos um só pão e um só corpo Não eram muitos os grãos de trigo? Mas antes de chegarem a pão, estavam separados. Foram unidos pela água, mas só depois de esmagados. Se o trigo não for moído e amassado com água, é impossível que chegue a ser o que se chama pão. O mesmo aconteceu convosco: fostes como que moídos pela humilhação do jejum e pelo sacramento do exorcismo. Depois, chegou o batismo, e fostes molhados com água para vos tornardes pão. Mas ainda não é pão, porque falta o fogo. Que quer dizer o fogo, senão a unção do óleo? Não há dúvida de que o azeite, como alimenta o fogo, é o sacramento do Espírito Santo. Prestai atenção ao que se lê nos Atos dos Apóstolos, … e pensai que no Pentecostes há-de vir o Espírito Santo. O modo como há-de vir é este: manifesta-Se em línguas de fogo. … Vem, pois, o Espírito Santo. Depois da água o fogo. E tornais-vos naquele pão que é o Corpo de Cristo». (Sermão 227; cf. Antologia Litúrgica 3881A-3881C)