D. Américo Aguiar em entrevista à VP (c/ áudio)

Foto: Patriarcado de Lisboa

“Dar graças a Deus por todos esses homens e essas mulheres de coração cheio e total que fizeram aquilo que eu sou”. O novo bispo auxiliar de Lisboa refere o que tem sentido nestes últimos dias após a nomeação, recorda com emoção os dezoito anos que passou na diocese do Porto e afirma retomar o lema de D. António Francisco dos Santos, “In manus tuas”, para homenagear a sua bondade e anunciar a alegria do Evangelho. Pois o “Evangelho é tudo o que temos e somos”.

Entrevista conduzida por Rui Saraiva

P: O que é que sentiu quando soube da nomeação para bispo auxiliar de Lisboa?

R: Posso dizer que quando o senhor D. Manuel Clemente me telefonou ao fim da manhã de uma segunda-feira, até hoje eu ainda não sei o que é que eu lhe disse a ele. Só me consigo lembrar do que ele me disse a mim. E já lhe perguntei e ele sorriu mas confesso que não sei, absolutamente, aqueles segundos, aqueles minutos, são eternos, e não tenho a perceção do que é que aconteceu. E depois fui almoçar e desde esse dia até hoje estou a viver cada segundo e cada momento nessa sensação. Quando o Papa Francisco falou no lema dele: o Senhor voltou os olhos misericordiosos e chamou e escolheu… Anda por aí o que sinto. Quando falamos da nomeação de outras pessoas somos muito especialistas e assertivos nas avaliações. Agora quando jogamos em casa as coisas tomam outros sentimentos e outros significados e confesso, não por falsa modéstia, que tenho a sensação de que somos muito pequeninos e ou Senhor faz ou então não é possível.

P: E vai-se colocar “In manus tuas”. Lema de D. António Francisco é uma grande responsabilidade. Como vai viver essa bondade?

R: Eu tive a graça de viver com ele no Porto, intensamente, a correr de Lisboa para o Porto e do Porto para Lisboa, e sei muito bem o quanto ele se deu e deu até ao fim. Sem ses e sem mas, e sem nos escutar naquilo que eram os nossos pedidos e provocações para que ele se poupasse. Mas depois aprendi e aprendemos todos que o Bom Pastor não tem ses nem mas. E é isso que eu quero e desejo fazer e peço ao Senhor que me permita ser. “In manus tuas”, Pai, nas tuas mãos, entrego o meu espírito, quer significar este fim e início. Foram as últimas palavras de Jesus na cruz e foi o início de uma história bonita da qual todos nós usufruímos. A homenagem ao senhor D. António Francisco quer ser também essa bondade que tanto marcou o seu pontificado. E aquela frase que me marca profundamente quando ele dizia na homilia da entrada: “Só pela Bondade aprenderemos a fazer do poder um Serviço, da Autoridade uma Proximidade e do Ministério a Paixão da missão de anunciar a alegria do Evangelho. O Evangelho é tudo o que temos e somos. In manus tuas”. Assim será.

P: E será uma viagem do Porto até Lisboa. Leva o Porto no coração. O que é que recorda em especial destes dezoito anos de sacerdote?

R: Principalmente, rostos e histórias de vida. Nós estamos aqui neste triângulo: Paço Episcopal, Catedral e Seminário Maior e é neste cruzamento de edifícios, de histórias, de pessoas, de bispos, de padres, de seminaristas, de colegas que não continuaram, de colaboradores fiéis, de prefeitos, de cozinheiras, de maestros, de músicos, enfim, de tanta gente que é responsável por aquilo que nós somos hoje. Aliás, eu na mensagem que enviei para o Porto lembrei o senhor Ferreira e a Dona Carolina que para aqueles seminaristas da nossa época eram um homem e uma mulher que se deram totalmente a esta causa de educar os rapazes e que eram para nós referências. E todos nós precisamos de referências. E as referências tanto são os professores catedráticos, os engenheiros e arquitetos como são as pessoas simples. Na simplicidade das suas funções, anonimamente, a lavar a louça, a lavar a roupa, a cozinhar a passar a ferro. E nestes dezoito anos eu só tenho motivos para dar graças a Deus por todos esses homens e essas mulheres de coração cheio e total que fizeram aquilo que eu sou.

P: Quer deixar uma mensagem aos diocesanos do Porto neste momento?

R: Alguém disse que o coração não tem distâncias. E, hoje em dia, este fenómeno que vivemos da globalização e das redes sociais e das comunicações tão fáceis é óbvio que estamos sempre todos em todos os lugares. Mas, cada vez mais tenho aprendido que a geografia não é aquilo que nos define. O importante, são as pessoas. E as pessoas do Porto são únicas. Mas as pessoas de Lisboa são únicas. E as pessoas de outro sítio qualquer também são únicas. Aliás é por isso que os turistas nos procuram é porque as pessoas são únicas. Não pelos edifícios, nem pelas ruas, nem pelas pontes. Isso há muitas em todo o lado do mundo. Mas quando se descobre os portugueses descobre-se um povo que é único e que tem uma missão na história. E por isso, mas do que pensarmos naquilo que nos divide e nas picardias, e na capital são uns malandros, e os do Porto é que trabalham e os de Braga é que rezam e os de Coimbra é que estudam… Acho que devemos mais olhar para aquilo que nos aproxima. O senhor arcebispo do Panamá, com quem estive muito em novembro e janeiro passados diz que “somos distintos mas não somos distantes”. Ora, é na singularidade de cada um, que Deus proporcionou, que nós havemos fazer caminho uns com os outros. E Porto e Lisboa ficam no mesmo sítio, ficam no coração.