Revisitando Fernando Pessoa

No dia 30 de novembro de 1935, faz agora 83 anos, falecia em Lisboa uma das maiores figuras da nossa história: Fernando António Nogueira Pessoa (13 de junho de 1888 – 30 de novembro de 1935). Bom é que o recordemos, por algumas das suas dimensões menos divulgadas.

Por M. Correia Fernandes

Causa-me sempre engulhos justificados quando se fala ou escreve dele como “o poeta Fernando Pessoa”, porque a visão suposta no epíteto é redutora, com todo o respeito pelos poetas. De facto Fernando Pessoa é essencialmente pensador e filósofo (como tantos poetas o são), que usa a poesia como uma das formas mais ricas da expressão do pensamento, como das suas vivências. A própria criação heteronímica tão referenciada como uma originalidade (que o é) constitui apenas uma das fórmulas pelas quais quis exprimir e traduzir a sua conceção do mundo, no que se refere sobretudo ao universo do sentimento poético enquanto expressão do humano na sua multiplicidade.
Mas o pensamento de Pessoa é muito mais vasto, mais alto e mais profundo do que a “simples” expressão do poético: ele abrange todo o entendimento do ser e da pessoa humana, do pensamento, da humanidade, da natureza e do universo. Mais que o “poeta Pessoa”, como se ouve dizer, deverá falar-se de “o pensador Pessoa, o mestre universal Pessoa”.

Prestemos-lhe então uma homenagem simples neste 83.º aniversário da sua morte, através de algumas citações entre tantas outras possíveis, disponíveis na Rede, relacionadas com a dimensão da Filosofia e com a dimensão da própria interpretação teológica.

A Verdadeira Filosofia de Vida
Trabalhar com nobreza, esperar com sinceridade, sentir as pessoas com ternura, esta é a verdadeira filosofia. 1 – Não tenhas opiniões firmes, nem creias demasiadamente no valor das tuas opiniões. 2 – Sê tolerante, porque não tens certeza de nada. 3 – Não julgues ninguém, porque não vês os motivos, mas sim os actos. 4 – Espera o melhor e prepara-te para o pior. 5 – Não mates nem estragues, porque não sabes o que é a vida, excepto que é um mistério. 6 – Não queiras reformar nada, porque não sabes a que leis as coisas obedecem. 7 – Faz por agir como os outros e pensar diferentemente deles.

Anotações de Fernando Pessoa (sem data)

Da existência de Deus
Os argumentos relativos ao problema da existência de Deus têm sido viciados, quando positivos, pela circunstância de frequentemente se querer demonstrar, não a simples existência de Deus, senão a existência de determinado Deus, isto é, dum Deus com determinados atributos. Demonstrar que o universo é efeito de uma causa é uma coisa; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente é outra coisa; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente e infinita é outra coisa ainda; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente, infinita e benévola outra coisa mais. Importa, pois, ao discutirmos o problema da existência de Deus, nos esclareçamos primeiro a nós mesmos sobre, primeiro, o que entendemos por Deus; segundo, até onde é possível uma demonstração. O conceito de Deus, reduzido à sua abstração definidora, é o conceito de um criador inteligente do mundo. O ser interior ou exterior a esse mundo, o ser infinitamente inteligente ou não — são conceitos atributários. Com maior força o são os conceitos de bondade, e outros assim, que, como já notamos têm andado misturados com os fundamentais na discussão deste problema. Demonstrar a existência de Deus é, pois, demonstrar, (1) que o universo aparente tem uma causa que não está nesse universo aparente como aparente (2) que essa causa é inteligente, isto é, conscientemente activa.

Fernando Pessoa, “Ideia Filosóficas” Textos disponíveis em www.citador.pt

Os rituais simbólicos
Trata-se de um texto escrito para explicitar o sentido da sua obra Mensagem, que, como é sabido, procura buscar o significado da nossa identidade como povo, como país e como interveniente no universo da condição humana. Não é sem sentido que esta obra comece com as palavras “Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum” (Bendito o Senhor nosso Deus que nos deu um sinal). Proponho uma leitura calma desta análise: O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.

A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar.

A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.

A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo… Relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está em baixo. Não se poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado.

A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.

A quinta é a menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e a Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma, da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.

Aqui chegados, recordamos que os sacramentos são rituais simbólicos. Pessoa não escreveu sobre os sacramentos e o seu sentido como celebrações da fé ou da vida. Porém, será difícil encontrar algo que melhor explique o sentido dos sacramentos como “sinais sensíveis de uma realidade invisível” do que este texto. Sugiro pois que nas preparações para a celebração dos Batismo ele seja utilizado.

Repare-se como na última condição ele aponta a graça (linguagem cristã, alma dos sacramentos; a “mão do Superior Incógnito” é uma referência maçónica de uma fé intelectual ou científica. E que a referência à conversação com o Santo Anjo da Guarda é uma referência ao entendimento da piedade popular imediata: poderíamos também falar de figuras inspiradoras como Santa Rita, a Madre Teresa, ou Luter King.

Uma homenagem pois ao grande pensador Pessoa