A identidade do Tempo de Advento

Com o 1º Domingo do Advento, entramos no ciclo litúrgico da Incarnação do Senhor. À luz da história, este polo do ano litúrgico é uma evidente projeção da Páscoa. Não é, pois, de estranhar o paralelismo dos dois ciclos: tal como a Páscoa é preparada pela Quaresma e se prolonga no tempo pascal, assim também o Natal/Epifania é precedido pelo Advento e se prolonga no tempo festivo até à Festa do Batismo do Senhor. Natal e Páscoa integram-se, harmoniosamente, na celebração unitária do Mistério de Cristo no decurso do ano.

Nas principais Igrejas do Ocidente, a organização de um tempo de preparação para o Natal/Epifania data do séc. IV. O Concílio de Saragoça, do ano 380/81, contém a mais antiga notícia de um tempo de preparação referindo 3 semanas, de 17 de Dezembro a 6 de Janeiro. Esta preparação seria em função do Batismo que, então, já se celebraria também na Epifania. Nas Gálias (França) chegou a estruturar-se uma «Quaresma de S. Martinho», a partir de meados de Novembro, com 3 dias de jejum por semana. Nas liturgias ocidentais não romanas – Galicana, Hispânica e Ambrosiana – veio, assim, a prevalecer um advento de 6 semanas com forte componente penitencial: uma espécie de quaresma de Inverno.

O paralelismo Quaresma–Advento só se pode legitimar a partir do paralelismo Páscoa–Natal. A Páscoa, porém, era considerada como “Sacramento”: nela os cristãos participam com a iniciação cristã no mistério da morte e ressurreição de Cristo. Daí a necessidade de uma preparação expressa, ligada ao catecumenado. Até à época de São Leão Magno (meados do século V), o Natal era tido como uma simples comemoração, uma festa de “aniversário”. Nos sermões de Natal de São Leão Magno já se pode encontrar uma teologia mais rica que considera esta solenidade como um verdadeiro “Sacramento”. De facto, a sua celebração litúrgica torna presente em cada ano o mistério da Incarnação como início da obra salvífica de Cristo que culminará na Páscoa. Compreende-se, assim, que só a partir do séc. V se tenha organizado um “Advento” em Roma.

No Advento do Rito Romano, o aspeto escatológico prevaleceu sobre o histórico (preparação do Natal). Mais do que focar-se na espera e preparação da vinda do Filho de Deus na carne, os textos litúrgicos incidem sobre a sua vinda definitiva, a “Parusia”, a que a versão latina dos Evangelhos chama “Advento”: «Ita erit adventus filii hominis» (Mt 24, 27). Parece ter sido esta a ideia originária do “Advento” romano, orientado para a “Segunda vinda” do Senhor no fim dos tempos. Daí que os “domingos de Advento” apareçam nos Sacramentários Gelasianos a concluir o Ano litúrgico.

Curiosamente, na SC 102 parece insinuar-se a mesma visão: «No círculo de um ano… a Igreja desenrola o mistério total de Cristo, começando pela incarnação e pela Natividade, até à Ascensão, ao Pentecostes e à espera da feliz esperança do regresso do Senhor». Tomando à letra o texto conciliar, parece que o Ano litúrgico começa no Natal e termina no Advento… Aliás, ainda hoje se nota uma clara continuidade entre o 33º Domingo do Tempo Comum e o 1º Domingo do Advento. Note-se que, a separá-los, está a solenidade de Cristo Rei, instituída em 1925, mas só colocada no 34º Domingo aquando da reforma litúrgica pós-conciliar (1969).

Isto não significa que Roma negligenciasse à preparação do Natal. Essa preparação, porém,  fazia-se sobretudo com a celebração das «Quatro Têmporas» de Dezembro (na última semana antes do Natal).

A reforma litúrgica atual representa um claro regresso às fontes do Rito Romano: o Advento deixou de ser um tempo penitencial (acentuação galicana); predomina a orientação escatológica; a última semana – a partir de 17 de dezembro – concentra-se na preparação próxima das celebrações natalícias. Seguramente não se enquadra na tradição litúrgica – muito menos na «romana» – focar no presépio a atenção pastoral durante as primeiras semanas do Advento.