Jovens e Liturgia no Sínodo 2018 (2)

O nº 54 do Documento Final do último Sínodo destaca o protagonismo dos jovens na vida da Igreja. Eles não são meros destinatários ou sujeitos passivos da ação pastoral mas devem ser cada vez mais seus sujeitos ativos e, até mesmo, protagonistas. Ao exemplificar os âmbitos deste protagonismo juvenil na pastoral da Igreja, o Documento enumera 4 atividades: catequese, liturgia, cuidado dos pais pequenos e voluntariado em favor dos pobres. A Liturgia é, pois, uma das atividades eclesiais – em que os jovens «oferecem generosamente o seu serviço».

Diga-se, de passagem, que a Liturgia é aqui mencionada pela tangente e sem uma consideração expressa. Por isso, há o risco de se entender o protagonismo dos jovens de uma forma extrínseca: ativismo litúrgico! Os jovens desempenham tarefas, prestam serviços, intervêm na liturgia. Falta aqui uma reflexão sobre o que é a participação litúrgica integral e a sua dimensão mistérica, tão preconizada pelo Concílio. O sujeito principal das ações litúrgicas – o «protagonista principal – é Cristo-Igreja, pela força do Espírito. E, nessas ações, todos os fiéis – e este «todos» é inclusivo e nunca exclusivo – participam de forma ativa, mediante os ritos e as preces da Igreja, isto é, pelo agir simbólico ritual que dá corpo ao memorial do mistério de Cristo.

Participar liturgicamente é, portanto, muito mais do que intervir ministerialmente. É redutor e, mais ainda, equívoco, avaliar a participação litúrgico-sacramental – a verdadeira participação ativa que o Concílio enaltece e qualifica (consciente, interna e externa, frutuosa…) pela quantidade de serviços e intervenções dos participantes. Participar liturgicamente pressupõe que alguns prestem os serviços indispensáveis e convenientes para o bom desempenho das tarefas sem as quais a celebração não será efetiva. Mas é muito mais e melhor do que isso! Participar liturgicamente é incorporar-se na assembleia-Corpo do Ressuscitado acolhendo e sendo acolhido na comunidade celebrante; é escutar com docilidade a Palavra, disposto a conformar a vida por ela; é aderir interna e externamente às preces da Igreja; é unir-se íntima e cordialmente a Cristo, Sacerdote e vítima; é receber digna, devota e frutuosamente os sacramentos da graça; é, também, observar, nos momentos previstos, aquele silêncio sagrado que é parte integrante e necessária da celebração; é, depois, passar da eucaristia celebrada para a vida eucarística e, mais ainda, segundo uma recente exortação do Papa Francisco, transpor as grandes atitudes eucarísticas da celebração para a cultura que deverá ser “eucarística”… Esse é o salto de qualidade que todos – jovens incluídos – precisamos de dar para participarmos como verdadeiros sujeitos na ação litúrgica que é sempre – primordial e principalmente – ação de Cristo Sacerdote e do Seu Corpo que é a Igreja, pela força e na unidade do Espírito Santo.

Penso que falta esta reflexão quando no nº 134 do Documento final se afirma: “É preciso, portanto, favorecer a sua [dos jovens] participação ativa, mas tendo vivo o fascínio [maravilhamento] pelo Mistério; ir ao encontro da sua sensibilidade musical e artística, as ajudá-los a compreender que a liturgia não é puramente expressão de si, mas ação de Cristo e da Igreja”. Dá a ideia que se pretende promover (ou só resignar-se perante?)  o ativismo litúrgico juvenil tratando depois de o contrabalançar com uns cânticos de Taizé, e umas adorações eucarísticas em que se faça a pedagogia da contemplação e da adoração silenciosa. Se foi isso  (tenho a esperança de ter entendido mal…) é sinal de que ainda não se recebeu o Concílio e, portanto, ainda se imagina ser possível uma participação ativa que não inclua já toda a dimensão mistérica. Por outro lado, importa insistir em que o máximo ato de adoração eucarística, contemplação e oração é a própria celebração da Eucaristia (com todos os prolongamentos que se queiram e se querem).

E, não por último, é bom ter presente que o Mistério de que se trata na Liturgia é o Mistério de Cristo – Mistério Pascal – de que se fala amplamente no epistolário paulino. A melhor forma de manter vivo o seu fascínio deslumbrante não consiste, seguramente, em fechar os olhos ou em pô-los em branco. Acolher, celebrar, viver, anunciar o Mistério de Cristo é a nossa alegria, a nossa vocação e a nossa missão.