Do «Vós» majestático ao «Tu» do diálogo orante

É conhecido o relato anedótico de uma comunidade que cantava no coro monástico uma Hora do Ofício Divino. Tendo-se desencadeado aterradora tempestade, um irmão mais timorato terá proposto aos seus confrades que se interrompesse o canto ou recitação do Ofício. Para quê? Para rezar! Mas que estavam eles então a fazer?

De facto, sucedia que muitos dos que zelosamente recitavam ou cantavam as Horas do «Breviário», não sentiam esse desempenho como «oração»: era antes o satisfazer de uma obrigação, o cumprimento de um «ofício», frequentemente sentido como um fardo pouco compatível com os ritmos e urgências da vida apostólica. Para rezar… tinham o terço, a meditação diária, a visita ao SS.mo Sacramento, os devocionários da moda ou da regra ou do costume …

Algo de semelhante continua hoje a acontecer na Liturgia em Português: o missal está repleto de belíssimas orações… Acontece, porém, que, reféns de um uso atávico, as versões oficiais recorrem ao plural majestático para a invocação a Deus – «Vós» –, como se o uso da língua na Liturgia se tivesse detido no tempo, deixando de ser contemporâneo de quem hoje é chamado a fazer suas essas preces sublimes.

Na nossa região, quem tem mais de meio século de vida é possível que nunca se tenha dirigido ao pai ou à mãe tratando-os por «tu». Respeitinho! Não frequentaram juntos a escola! – «Vossemecê chamou?» – Também era com «vossemecê» que Lúcia se dirigia à Senhora da Azinheira. Mas os mesmos, que nunca trataram os pais por «tu», nunca foram tratados pelos filhos a não ser por «tu». Sem que essa forma mais próxima de tratamento signifique desrespeito, ou menos carinho. Houve, neste capítulo, uma evolução assinalável no uso da língua. Não deverá a Liturgia acompanhar esta evolução?

Acontece que apenas o Português e o Catalão mantêm o pronome «vós» para se dirigir a Deus na oração: o Latim, o Italiano, o Francês e o Espanhol usam sempre e só o «TU».

Por outro lado, quando se solicita a redação de textos para momentos de oração nas situações mais variadas (vejam-se as pagelas e guiões, por vezes de âmbito nacional, que regularmente são produzidos e distribuídos), a regra é a do recurso ao pronome «Tu» – 2ª pessoa do singular – para rezar a Deus, à Virgem Maria, ou aos Santos. Vemos e ouvimos frequentemente os Senhores Bispos, no termo de Liturgias em que se respeita escrupulosamente o «vós» oficial, a recitar uma oração expressamente redigida para o momento em que, quase inevitavelmente, o «vós» dá lugar ao «Tu». Não faltam exemplos desta tendência: a oração da semana das vocações 2018, a da semana dos Seminários 2018, a consagração a Nossa Senhora de Fátima rezada pelo Papa Francisco em 13 de outubro de 2013, a oração jubilar de consagração no centenário das aparições de Fátima…

Está a ser preparada, finalmente, uma tradução da Bíblia para uso oficial na Liturgia e na Catequese. Já é sabido e assumido que nessa versão se usará, também para Deus, o pronome pessoal da segunda pessoa do singular: «Tu». É uma questão de fidelidade ao original. Já assim, aliás, ocorre na mais antiga tradução portuguesa da Bíblia… Consequentemente, quando essa versão entrar em uso, passará a haver discrepância entre o «Tu» a Deus nos Salmos e o «Vós» das orações…

Não deveria aproveitar-se a preparação da 3ª edição do Missal Romano em Português para dar esse passo (que já peca por tardio)? Para onde nos conduz a escuta dos jovens, recomendada no recente Sínodo dos Bispos?