Na defesa da liberdade

Por João Alves Dias

Depois de amanhã, dia 13, faz 60 anos que D. António escreveu a “Carta a Salazar”. Em sua honra, o poema que Sophia lhe dedicou:

“Na cidade do Porto há muito granito/Entre névoas sombras e cintilações/A cidade parece firme e inexpugnável/E sólida – mas habitada/Por súbitos clarões de profecia/Junto ao rio em cujo verde se espelham as visões/ Assim quando eu entrava no Paço do Bispo/E passava a mão sobre a pedra rugosa/O paço me parecia fortaleza/Porém a fortaleza não era/Os grossos muros de pedra caiada/Nem os limites de pedra nem a escada/De largos degraus rugosos de granito/Nem o peso frio que das coisas inertes emanava/Fortaleza era o homem – o Bispo – /Alto e direito firme como torre/Ao fundo da grande sala clara: fortaleza/De sabedoria e sapiência/De compaixão e justiça/De inteligência a tudo atenta/E na face austera por vezes ao de leve o sorriso/Inconsútil da antiga infância.”

Esta efeméride fez-me evocar o estudo “Os Bispos do Porto…”, de Ribeiro da Silva.

Escreve o prestigiado investigador:

“Poderemos recuar até ao séc. VI, visto que as circunstâncias conhecidas da vida do primeiro bispo do Porto e no Porto, D. Constâncio (585-589), oferecem pistas sedutoras. Efectivamente, Constâncio, para além de inaugurar a lista, foi também o primeiro Bispo a conhecer o sabor acre da ousadia de afrontar o poder constituído e a sofrer as agruras do exílio por razões de fidelidade à ortodoxia e de coerência com as próprias convicções. O rei Leovigildo, de fé ariana, tendo conquistado o antigo reino dos suevos, colocou no Porto um bispo heterodoxo, de nome Argiovito, porque o titular, Constâncio, fora capaz de contornar e resistir tanto às pressões como às ameaças e seduções do vencedor, mantendo-se firme na recusa do arianismo, preferindo o exílio a dobrar-se à vontade do soberano. A morte do rei em 586, abreviou o tempo do afastamento forçado do bispo, que mal chegou a dois anos. Mas não deixam de ser culturalmente curiosas e, de alguma forma, premonitórias as circunstâncias do primeiro bispo”.

E acrescenta: “Passadas muitas centenas de anos, a defesa da liberdade levaria outros a conhecer os mesmos fragosos, injustos e sombrios caminhos do exílio. D. António Ferreira Gomes é o exemplo próximo que nos acode de imediato à memória, mas não podemos esquecer de D. António Barroso, bispo do Porto ao tempo da proclamação da República, que foi despudoradamente destituído da Diocese.”

No dizer de Agustina, na paisagem do Porto sobressaem “as agulhas dos seus templos, as torres cinzentas”. Também, na sua história, avultam as pegadas dos seus bispos.

O nome de D. António Francisco, para a nova ponte, homenageia os bispos que, ao longo dos séculos, tanto influenciaram o caráter desta cidade “sólida – mas habitada por súbitos clarões de profecia”.