O Acólito na celebração «privada» da missa

Por S.D.L.

O conhecimento dos livros litúrgicos do Rito Romano no seu período clássico põe-nos em contacto com uma liturgia verdadeiramente popular e ministerial. Não havia um «missal» com tudo o necessário para a celebração eucarística. Esta resultava do concurso harmónico e ordenado de vários ministérios, ofícios e funções. O sacramentário continha apenas as fórmulas de oração que competiam ao presidente da ação litúrgica; as leituras bíblicas a anunciar, os hinos e antífonas a cantar, o «guião» com a descrição dos ritos… constavam de outros livros litúrgicos, da competência de outros ministros com consistência própria e desempenho responsável: os lecionários (que começaram por ser simples listagens de perícopes a proclamar), os antifonários e graduais, os ordinários são indicadores de uma liturgia em que era normal a presença e atuação de diáconos, leitores, cantores, acólitos e outros «ministros» ao serviço de assembleias litúrgicas vivas, estruturadas, participando de uma forma orgânica, verdadeira epifania da Igreja local.
A celebração «solitária» da Missa pelo sacerdote, sem comunidade orante reunida e sem a presença e intervenção de ministros, era algo de desconhecido.

As coisas evoluíram. Os monges começaram a ser ordenados presbíteros não para o serviço da comunidade monástica – bastava um – ou do povo de Deus mas para celebrar missas – cada vez mais missas – para satisfazer os compromissos assumidos pelas abadias como contrapartida de doações e fundações. Quando aos monges se somaram os frades, o fenómeno acentuou-se. Os conventos, que começaram por ser de «irmãos» (frades), encheram-se de padres que todos os dias celebravam solitariamente a Eucaristia pelas intenções dos oferentes.

A celebração da Missa começou a ser pensada não tanto a partir da Igreja com a sua rica diversidade de ordens, ministérios, ofícios e funções, mas cada vez mais exclusivamente a partir do ponto de vista do sacerdote “celebrante”. E, então, foi preciso organizar o «missal»: um livro que tivesse tudo o que era preciso para a celebração da Missa: as antífonas a cantar, as orações a rezar, as leituras a ler, as rubricas a observar no desenrolar do ritual… Não foi por acaso que os Franciscanos vieram a ser os editores do primeiro Missal impresso.

Nos mosteiros e conventos continuou a celebrar-se a «missa conventual» – centro da vida comunitária – com ministros e canto; depois ou antes, cada padre celebrava em privado a Missa que, por sua natureza, é sempre pública e comunitária. Por isso à unicidade do altar se sucede nessas igrejas o multiplicar de altares laterais ou em
criptas, com celebrações sucessivas e, por vezes, simultâneas da Santa Missa. Algo de semelhante acontecia nas Igrejas maiores, com cabidos e colegiadas: para além da Missa solene – com ministros e canto – multiplicavam-se outras celebrações em múltiplos altares… E até aconteceu que o povo de Deus, compreendendo cada vez menos o latim, em vez de «participar» nas Missas solenes, começou a preferir «assistir» a estas missas «rezadas»: eram mais breves… A Eucaristia nunca deixou de ser o «Sacramento da Unidade» mas essa sua identidade deixou de ser evidente na celebração eucarística.

O certo é que o Missal Romano de 1570 (S. Pio V), resultado da reforma litúrgica decretada pelo Concílio de Trento, assumiu como «missa-padrão» ou paradigma a «missa rezada» em que o padre faz tudo e as rubricas ignoram a presença dos fiéis, reduzidos à condição de assistentes mudos de uma ação sagrada da qual pouco viam e quase nada escutavam: tudo era dito em silêncio e, mesmo que o não fosse, não havia meios técnicos para amplificar as vozes que falavam numa língua desconhecida… Há quem pense que isso era o «mistério» e «sentido do sagrado» e chore a sua perda! Mas não foi essa a opinião dos mais de 2000 bispos (apenas 4 votaram contra!) que todos os dias celebravam desse modo e que em 4 de dezembro de 1963 aprovaram a Constituição sobre Sagrada Liturgia.

Entretanto, já o Movimento Litúrgico fizera imenso trabalho de conversão e de reforma das mentalidades e de algumas práticas. Foi tão difícil aceitar que a comunidade reunida pudesse responder «Et cum spiritu tuo» ao sacerdote que a saudava com o «Dominus vobiscum»! Aqui-del-rei! Lá se ia o «recolhimento» dos que tinham sido educados a preferir as suas devoções privadas. E para «assistir» à Missa bastava estar presente na Igreja, porventura chegando atrasado e permanecendo desconectado, ocupado em atos de piedade paralelos…

Foi neste contexto que floresceu o ministério do (acólito) ministrante. O Código de Direito Canónico de 1917 prescrevia no seu cân. 813, §1: «O sacerdote não celebre a Missa sem um ministro que o sirva e lhe responda». Durante séculos, estes ministros ajudantes da Missa – crianças, adolescentes, seminaristas, sacristães… – foram, ao mesmo tempo, a voz, os representantes e os substitutos da assembleia celebrante.

Eram o mínimo indispensável de assembleia. Eles davam um contributo valioso para que se preservasse, ao nível dos sinais, a natureza pública e comunitária da Eucaristia, embora atrofiada na sua expressão celebrativa.