Da ecologia à música sacra e à arte

Por M. Correia Fernandes

Constituiu motivo e afirmação de forte positividade a publicação em 24 de maio de 2015, faz agora três anos, da encíclica do Papa Francisco “Laudato sì” na defesa do equilíbrio ecológico. Poucos escritos papais terão merecido uma tão clara aceitação e louvor. Muitas iniciativas se inspiraram depois na sugestão de Francisco, mas o mais saliente foi uma espécie de viragem coletiva para a valorização do nosso entorno biológico, e para iniciativas que visam o equilíbrio da natureza, o pendor ecológico coletivo e a valorização do universo interno da pessoa.

Entre tais expressões de busca de equilíbrio se pode evidenciar a proposta de uma família francesa, testemunhada por Adelina Voizard, que escreveu um livro intitulado “Comment sauver la planète à domicilie” (Como salvar o planeta em sua casa). Afirma que guarda a íntima convicção que o desafio não é tanto a saúde do planeta, mas a nossa, ressaltando estar segura de que a conversão à ecologia, dela e do marido foi como que “arrastada pela nossa conversão a Deus”. Cultivando a domicílio os produtos da natureza, querem contribuir, em casal e em família, para a salvaguarda da casa comum. Nota-se no seu testemunho que eles compreenderam a grande linha de pensamento do Papa Francisco: que a espiritualidade cristã propõe uma forma alternativa de entender a qualidade de vida, encorajando um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de gerar profunda alegria sem estar obcecado pelo consumo, propondo a relação com a natureza como dimensão da conversão integral da pessoa. Por isso, o sentido pleno da relação com a natureza tem igualmente  uma dimensão cívica e política, que é também espaço do exercício da espiritualidade.

Por outro lado se pode apresentar como um virtuoso valor espiritual a recordação de obras de grande valor estético, nomeadamente as obras musicais que exaltam a sensibilidade e os valores mais fundos do espírito humano. A música e sobretudo a música sacra podem tornar-se um desses caminhos de aperfeiçoamento pessoal. Na igreja da Lapa, no Porto, apresentou-se um concerto com a  Grande Missa em Dó menor de Mozart.

Na introdução, o Reitor, Cónego Ferreira dos Santos, salientou que toda a força expressiva da poderosa música de Mozart se encontra compendiada nesta obra referencial, na sua densidade, riqueza de composição e expressividade. Simbolicamente convidou as largas centenas de participantes a escutarem de pé o elaboradíssimo e denso “Et incarnatus est”, uma bela interpretação da soprano Sara Braga Simões, passagem que resume para o autor todo o sentido do Credo.

Outra dimensão é a expressão artística através da pintura e da escultura. Quem visita a exposição de Cristos que se encontra na igreja dos Clérigos, não pode deixar de se impressionar com o sentido de compreensão do mistério que se encontra em esculturas como uma “Pietà” ou uma representação da Trindade, que traduzem expressão plástica, vivência espiritual, sentido estético e dinâmica evangelizadora.

Estas obras de arte, popular ou mais elaborada, são as fórmulas ancestrais das expressões modernas das tecnologias: elas faziam chegar visualmente aos olhos, às mentes e aos corações a um tempo a informação, o valor simbólico e o apelo afetivo. Estas imagens estáticas, fixas, permanentes e persistentes  eram as expressões que hoje nos são propostas  em movimento, efémeras, superficiais  e transitórias. Quem fala melhor? Quem diz mais? Quem lança apelos mais profundos e actuantes?