ETA: o fim de uma história dramática

Há dias, a ETA fez questão de comunicar publicamente a sua própria dissolução.

Por António José da Silva

Foi uma notícia que só não teve o impacto mediático que mereceria em circunstâncias normais, porque aquela organização já tinha tomado, ao longo dos últimos sete anos, uma série de decisões que, na prática, significavam o fim das suas actividades terroristas: desde o seu plano de desarmamento, até ao pedido de perdão pelas centenas de vítimas mortais dos atentados que foi cometendo ao longo dos anos. ETA é a abreviatura de Euskadi ta Askatasuna, uma expressão basca que pode ser traduzida por “Pátria e Liberdade”.

Foi criada em 1959 como uma organização cujo objectivo fundamental era o de reunir o povo daquela região â volta de uma história e de uma cultura comum. A grande bandeira desta cultura comum era a língua, uma língua cuja origem ainda hoje é discutida por filólogos e historiadores. Entre os vários elementos identificadores de uma Cultura, a Religião e a Língua são, quase sempre, os elementos mais fortes, mas no caso do chamado país basco, foi a Língua que sempre marcou mais visivelmente a identidade deste povo.

Durante a história da sua formação, o estado espanhol teve de se confrontar com o desafio levantado pela existência e afirmação dos vários reinos que estiveram na sua origem. Ao contrário do que sucede com outros países, a Espanha não é um estado nação, mas um estado plurinacional, o que, podendo ser uma riqueza em termos culturais, é quase sempre também, um grande desafio em termos políticos.

Promover e garantir a unidade política e afectiva dos vários reinos ou nações que estiveram na génese desse estado foi sempre um desafio que os seus construtores tentaram superar recorrendo, ora à força ora ao diálogo.

A Espanha democrática que sucedeu ao franquismo, defensor acérrimo do princípio da unidade do Estado levado ao extremo, encontrou na proposta da autonomia das regiões a grande e última solução para salvar essa unidade, mas é sempre difícil estabelecer, na prática, os limites raziáveis de uma qualquer autonomia.

Em alguns casos, esta pode funcionar como travão às exigências da independência, mas noutros, arrisca-se a ser um caminho aberto para lá chegar. No que respeita à opção linguística, por exemplo, a utilização do espanhol tende a perder o seu estatuto dominante. Seja como for, e apesar de já não constituir uma novidade, o anunciado fim da ETA constitui uma grande notícia para a Espanha.