“Temos de formar lideranças católicas e é o que estamos a fazer”

Em entrevista à VP, o padre José Pedro Azevedo, diretor do Secretariado Diocesano da Pastoral Universitária e Chefe do Gabinete Episcopal, reflete sobre o trabalho desenvolvido com a comunidade universitária da diocese do Porto. Recorda D. António Francisco dos Santos e agradece o testemunho cristão de todos os bispos com quem trabalhou.

Entrevista conduzida por Rui Saraiva

VP: Está a chegar mais uma Bênção das Pastas dos estudantes universitários finalistas. É uma iniciativa que exige muito esforço?

JP: Sim, é uma iniciativa que exige muito esforço e também muita paciência para em cada ano enfrentar as dificuldades inerentes a um evento destes. É um grande acontecimento diocesano e académico, logo acresce responsabilidade e trabalho. É também um evento de grande dimensão, o que nos desafia a superarmos os nossos limites de criatividade e empenho, os recursos são escassos, quer humanos, quer financeiros, e temos de estar todos muito coordenados e sintonizados para potenciar as capacidades de cada um e das diferentes instituições envolvidas.

VP: Como é organizar uma Bênção das Pastas?

JP: Em primeiro lugar dizer que, apesar do muito trabalho, é um gosto enorme organizar um dia como este, porque vai tocar no âmago da vida de muitos milhares de pessoas. Sabemos o quanto significa este dia para tantos finalistas, mas também para tantos familiares, para toda a Academia e claro para a Diocese.

Em segundo lugar dizer que, quando acabamos uma Bênção, começamos a pensar logo na seguinte e depois ao longo dos meses vamos preparando este momento. É claro que desde Janeiro até agora o trabalho intensifica-se muito e neste último mês torna-se mesmo muito exigente. A Bênção é o nosso momento alto do ano.

Um aspeto específico desta organização prende-se com os contactos que são necessários fazer com as diferentes instituições envolvidas, nomeadamente com a FAP, o que nos enriquece muito em termos humanos e de relacionamentos.

Organizar uma Bênção ajuda-me também a mim a perceber melhor o meu lugar, diremos de coordenador geral, e a ser capaz de discernir o lugar de cada um e o que cada um pode dar como contributo para a Bênção. E há efetivamente uma grande partilha de responsabilidades e talentos postos ao serviço. É também um grande desafio de trabalho em equipa e aí percebermos todos, o dinamismo evangélico que uma iniciativa destas pode e deve ter. Este ponto é o mais importante.

VP: Qual a recetividade dos estudantes a este momento de celebração religiosa?

JP: Numa nota prévia, diria que é muito boa. Faz parte da tradição, mas é também o poder dizer publicamente e num ato de fé que cada um chegou a este momento importante. E aqui parece-me necessário destacar que não importa o grau de pertença à Igreja, porque vejo em muitos a autenticidade do que a Bênção significa. E o respeito também. A Bênção toca no fundo do coração de cada finalista e isso é genuíno. Por exemplo, nós celebramos a Eucaristia junto com a Bênção e sabemos que pode ser um risco, mas em cada ano vem reforçada a evidência de que optar por outro caminho é recuar e desistir da nossa Missão de acompanhar cada um, a partir do lugar onde está. É utópico? Pode ser, mas é a nossa missão e não nos podemos demitir dela.

VP: Qual a importância da Bênção das Pastas no global da atividade da Pastoral Universitária no Porto?

JP: Como já referi anteriormente é o nosso ponto alto, diria que é a expressão visível de todo o trabalho realizado ao longo do tempo com os estudantes. É «a cereja em cima do bolo». Tudo o que está para trás é fazer esse mesmo bolo, é o trabalho mais delicado mas também mais bonito. A Bênção é o trabalho mais cansativo, mas é também a prenda que damos aos finalistas e à Academia.

VP: O CIMT- Centro In Manus Tuas é uma realidade recente e em crescimento. Como tem sido dirigir esse centro universitário?

JP: Este é o nosso segundo ano com o CIMT e já fizemos tanto! Nunca pensei que crescêssemos tanto e em tão pouco tempo. E quando falo assim, estou a referir-me ao crescimento da pastoral universitária. Era necessário este centro universitário, para estarmos aptos ao desafio de trabalharmos em chave humana, cultural e também vocacional este vasto mundo universitário e muito particularmente os estudantes.

Tenho aprendido muito com os estudantes e sabe uma coisa? Chego a casa todos os dias muito tarde, mas também muito, muito, feliz. Esta é uma pastoral em que temos permanentemente de recomeçar, mas há frutos tão evidentes, que são a maior recompensa que eu tenho tido, enquanto padre, neste serviço. Conto-lhe uma experiência que serve de exemplo: – tivemos a viver lá no centro uma estudante francesa, que vinha sempre à missa mas não participava, nem sequer comungava. Quando regressou ao seu país disse: -«sabe, eu não sou crente, os meus pais nunca me falaram de Deus, mas eu quero descobrir esse Deus em que vocês acreditam, porque vocês são tão felizes!». Bem, quer maior prova de que o que estamos a fazer é mesmo por aqui? E há tantos outros exemplos parecidos.

Não temos dúvidas que o caminho faz-se ao caminharmos e o CIMT é imprescindível para chegarmos a um mundo em que as estruturas tradicionais da Igreja não conseguem chegar, no contexto da nova evangelização. Temos de formar lideranças católicas e é o que estamos a fazer.

VP: O CIMT foi uma realização de D. António Francisco dos Santos. Que memória guarda do saudoso bispo do Porto?

JP: É verdade, o CIMT foi um sonho e uma realização de D. António Francisco dos Santos, diria mesmo que no contexto da sua precoce partida foi talvez a única, assim, visível. Não será por acaso que no livro do retrato dos Bispos do Porto o autor do texto ao resumir a vida de D. António faça referência ao CIMT, como expressão da vontade deste Bispo. No nosso entender D. António foi um visionário ao propor às Irmãs de São José de Cluny ficar com o lar que estas tinham na Rua do Breiner e aí instalar o Centro Universitário e uma residência de estudantes, correspondendo também a um desafio do Reitor da UP de acolhermos os estudantes estrangeiros. D. António disse numa homilia que o CIMT e a Residência Cluny eram o pequeno contributo da Diocese do Porto para a paz no mundo, correspondendo ao desafio do Papa Francisco. É por isso que ali estamos a trabalhar muito o diálogo ecuménico e inter-religioso.

Assim, a memória que guardo de D. António é de gratidão por este sonho concretizado, de grande visão pastoral no contexto de nos lançarmos no caminho da nova evangelização e de perceber, que como Diocese somos um todo, em que todos contribuem para todos e nada é feito sem ser para o bem de cada um, de cada setor da pastoral. Nada é feito arbitrariamente e isoladamente, mas sempre com a intervenção de todos.

Um dia D. António disse-me: «sabes Padre Zé Pedro, o nosso problema não são as casas que temos, mas o projeto pastoral que devemos ter para elas». Guardo esta visão pastoral na minha memória, porque é a Igreja em que eu acredito.

VP: Agora com o novo bispo do Porto, D. Manuel Linda, como consegue compatibilizar a sua função de diretor do Secretariado da Pastoral Universitária com a de Chefe do Gabinete Episcopal?

JP: Gostava de dizer isto, já que tenho esta oportunidade. Tive a Graça de trabalhar de perto com alguns bispos, D. Armindo, D. António Francisco, D. António Taipa, neste tempo de administração diocesana, e agora D. Manuel. Posso dizer que encontrei em todos os bispos o coração do Pastor, que é Jesus. D. Manuel está cá há pouco tempo, mas já me fez perceber isto mesmo. E isso basta para compatibilizar as funções, como diz na pergunta que me faz. Por isso estou agradecido.

Em termos práticos, exige uma grande disciplina de vida para perceber o que é essencial momento a momento. Os meios tecnológicos também ajudam muito, por exemplo na gestão da agenda do Bispo Diocesano.

Não sou um super-homem, mas tento fazer o meu melhor todos os dias com responsabilidade e com absoluta lealdade para com quem entendeu que poderia servir a Igreja desta maneira.

E depois, sinto-me tremendamente feliz naquilo que faço e, por isso, tudo tem sido leve para mim.